23/11/2008
Dean Potter, o escalador que mostrou ao mundo que
tudo é possível quando o psicológico trabalha em
conjunto com a técnica e o preparo físico. Atila Barros
Considerado um dos melhores escaladores do mundo,
Potter parece ser um dos grandes divisores de águas
entre o que é possível e o improvável dentro do
esporte de montanha.
Nascido em 18 de janeiro de 1972 nos Estados Unidos,
montanhista de renome internacional, tem no seu
currículo o BASE jumper, BASE liner, highliner e o
mais novo se joga do mundo, o Free
Base.
Produtor de clássicos como
Masters of Stone, Potter é inconseqüente
em suas escolhas e irreverente em suas entrevistas,
esse monstro do montanhismo mundial não parece estar
preocupado com as opiniões das comunidades de
escalada espalhadas pelo mundo. Potter assim como
seu falecido amigo
Dan Osman,
compartilha da frase “se joga”, levando a serio esse
termo. Escalar grandes paredes em solo em tempo
Record parece ser pouco para esse recordista.
Ainda que inspire grande
admiração, Potter também dividiu a
comunidade de escalada pelo mundo. Em 2006,
ele escalou o Delicate Arch, a reverenciada
estrutura de arenito que fica perto de Moab
e cuja silhueta enfeita as placas dos
automóveis de Utah.
Tecnicamente, não se trata de
uma escalada ilegal, mas ele sofreu críticas
ferozes e foi acusado de deixar sulcos na
estrutura (algo que ele nega) e de trair o
espírito agreste do montanhismo com seu
apelo à autopromoção e à atenção da mídia
despertando a ira dos mais tradicionalistas.
Por conta disso, ele perdeu
seu patrocínio da Patagônia, fabricante de
roupas e equipamentos para montanhismo que
ostenta uma imagem ecológica. Potter ainda
assim diz que não lamenta a escalada do
Delicate Arch. "Sei que respeitamos
completamente o lugar", diz. Suas escaladas
continuam ambiciosas.
Mas
o seu esporte se tornou comum, até mesmo crianças
são convidadas a praticar escaladas nas paredes de
bufês infantis em dias de festa. Por isso, da mesma
forma como os surfistas começaram a praticar skate
nos anos 50, Potter agora quer se dedicar a esportes
emergentes como highlining e base jumping.
"Creio que isso seja parte da motivação de Dean,
continuar avançando ao desconhecido e ao extremo,
enquanto homogeneidade cresce", disse Steph Davis,
mulher de Dean e uma das montanhistas mais
respeitadas do mundo.
A americana Steph Davis, e
escaladora, BASE jumper e é considerada uma
das melhores esportistas entre os
escaladores do mundo, especializada em
escaladas em solo. Em 2003, Steph se tornou
a segunda mulher a escalar em livre o El
Capitan, em um dia. Steph é também famosa
por seus solos em Long's Peak Diamond, no
Colorado, 305 metros de granito, parede
situada a 4.267 metros de altitude. No verão
de 2007, ela escala em solo a via Diamond
quatro vezes, com o final solo gravado por
Peter Mortimer, da Sender Films. Pouco mais
tarde, ela escalou em solo e saltou de BASE
jumper o Castleton Tower, em Moab, Utah.
Não
satisfeito em solar vias difíceis e fazer Slack line
entre abismos, o escalador americano Dean Potter
resolveu inovar mais uma vez, inventou o Base line.
O
Slack line é uma fita onde escaladores mais
equilibrados e circenses testam suas habilidades.
Ela ficou famosa nos acampamentos base de montanhas,
onde montanhistas passam longos períodos esperando
pelo bom tempo para entrar na rocha, sem nada o que
fazer, desse tédio nasceu um esporte que esta
virando febre entre novos e antigos esportistas.
Depois de muito treino e ousadia, alguns escaladores
acostumados com desafios, resolveram aumentar o
nível de dificuldade do Slack line e inventaram o
high line, ou seja, a "linha alta" que é nada mais
nada menos que um Slack line em altura ligando dois
picos com um grande abismo entre eles. Para
apimentar a coisa toda, que já não era lá nada
fácil, Dean inova com a invenção do Base line.
Depois do High line, o
escalador americano Dean Potter inventou o
Base line que é um High line sem back up de
segurança. Ao invés disso, ele leva um para
quedas de base jump, ou seja, se ele cair, a
queda será amortecida acionando o pára
quedas, o que deixa a travessia muito mais
difícil técnica e psicologicamente falando.
Em 14 de março, 2008, Dean
Potter aparece na capa do NY Times descalço,
em um dia super quente, na foto Potter faz a
travessia entre dois canyon de arenito em
Moab, Utah, EUA.
Fato em si, já é uma noticia
digna dos grandes escaladores mundiais, mais
o interessante foi o destaque que o jornal
americano NY Times deu ao fato, coisa raro
no jornalismo tradicional.
O
jornalista Jere Longman abre a matéria com a frase;
“Homem atravessa cânion na corda bamba e sem cabos”,
esquecendo de comentar o pára-quedas.
Potter aprendeu essa versão extrema da corda-bamba
treinando com um morador de rua que no passado
escreveu livros sobre mecânica quântica. Mas isso
foi há muitos anos, enquanto ele brincava usando uma
corda de nylon estendida entre uma árvore e o
pára-choque de uma perua Chevy, a pouca distância do
chão.
A nova empreitada de Dean
Potter, um dos maiores peritos mundiais em
escaladas, era completamente diferente:
caminhar descalço, no entardecer de uma
sexta-feira, 7 de março, entre os dois picos
que delimitam o Hell Roaring Canyon, cujas
encostas formam uma letra "U" delimitada à
direita por uma parede de arenito quase
vertical de 120 metros de altura e à
esquerda por um abismo de 270 metros por
sobre o leito rochoso de um rio seco.
Potter não estava usando
qualquer fita de segurança, e nada o
segurava à corda a não ser a força de seus
pés tamanho 45 e a confiança em que, caso
necessário, o pára-quedas que trazia preso
às costas se abriria rapidamente e sem
dificuldades e o levaria ao chão sem antes
arremessá-lo contra as paredes rochosas do
cânion.
“Com
altura de 1,95 metros e peso de 81 quilos, Potter
estava vestindo jeans e uma camiseta azul com o
desenho de um gavião. Uma faixa larga ajudava a
prender seus cabelos, e lhe dava certa semelhança
com um Keith Richards menos emaciado e mais amigo do
perigo, arriscando a vida nas montanhas diz Jere
Longman em sua matéria.
Quando Potter subiu à corda de 55 metros de extensão
- uma faixa de azul iridescente brilhando contra o
tom pálido de adobe e o verde esmaecido das paredes
do cânion - ele estava teoricamente se tornando a
primeira pessoa do planeta a combinar o High line ao
BASE jumping.
Potter estava dando um novo passo rumo à realização
de seu desejo de voar, dessa vez não fantasiado de
pássaro com um traje de nylon dotado de asas, e nem
vestido de esquilo, duas coisas que já tentou no
passado, mas sim como solista que saltaria de um
penhasco de uma maneira que nem ele mesmo havia
ainda compreendido, com uma força e uma concentração
que ele ainda não possuía, e simplesmente sairia
voando. Os alto-falantes instalados à beira do
abismo executavam uma canção de trace music com
letra muito apropriada: "Às vezes acho que meus
sonhos são loucos".
As
caminhadas em corda bamba a uma altitude elevada
ganharam o nome de highlining, e representam uma
versão ainda mais extrema do slacklining, a prática
de caminhar na corda bamba sem a vara que
equilibristas do passado costumavam utilizar, e
usando uma corda elástica, que permite diversos
truques como sentar, deitar, fazer acrobacias ou
brincar de bambolê. Já o BASE jumping é um esporte
que envolve saltar de pára-quedas de objetos como
edifícios, torres, penhascos e pontes.
Potter, há muito vem despertando admiração como
montanhista. Em 2002, no Parque Nacional de Yosemite,
ele se tornou a primeira pessoa a escalar os picos
El Capitan e Half Dome juntos, e sem uso de
equipamento auxiliar, em prazo de menos de 24 horas.
O
método significava que ele só poderia usar a força
dos braços e pernas para a escalada, sem efeito de
alavanca, e que as cordas só poderiam ser usadas
para fins de segurança, em uma escalada que, no
plano vertical, ultrapassava os 1,5 mil metros.
Trata-se de um esforço que requer grande
concentração e velocidade, e que seria impensável
para um montanhista amador que pratique escaladas
nos seus finais de semana; para uma pessoa como
essa, não só seria necessário equipamento auxiliar
como férias de duas semanas, para reproduzir o
feito.
Em
2001, Potter escalou El Capitan pela via conhecida
como "Nose", que ostenta não só um paredão vertical
de 900 metros como uma seção reversa de difícil
travessia, em apenas três horas e 24 minutos.
O feito é notável em sua
economia de tempo, se levarmos em conta que,
em 1958, o renomado montanhista Warren
Harding precisou de 45 dias para conduzir
sua equipe ao topo, por essa mesma via.
Potter em diversas ocasiões já realizou
escaladas de centenas de metros sem
quaisquer cordas, e sem qualquer recurso
para lhe oferecer mais estabilidade além de
suas sapatilhas e um saquinho de magnésio.
"O esporte depende de momento, depende de
atingir aquele estado no qual o tempo e o
espaço desaparecem, e tudo mais vai embora.
Dean consegue se manter nesse estado por
horas a fio, sem deixar que sua mente
vagueie, sem deixar que as dúvidas se
instalem, mantendo sempre a confiança e a
deliberação em todos os movimentos. Imagine
na vida real, se pudéssemos ir ao escritório
dessa maneira e trabalhar sem distração
alguma.”,
diz Beaver Theodosakis, fundador e
presidente da “PRANA”, a fabricante de
roupas para montanhismo que patrocina
Potter.
Como
sempre inovando e se jogando cada vez mas na linha
do que parece ser improvável, em agosto de 2008,
Potter foi mais ousado: como o mesmo pára-quedas de
BASE Jumping.
O se joga desta vez aconteceu
na Suiça, onde ele usou apenas sapatilhas,
magnésio e um pára-quedas de BASE Jumping
para escalar a via Deep Blue Sea (Profundo
Mar Azul) de 5.12+ localizada nas paredes de
calcário do monte Eiger. Modalidade criada e
batizada de Free Base pelo monstrinho Dean
Potter.
Para concluir a tarefa,
Potter fez uma travessia até a via a partir
da aresta noroeste do Eiger e solou a
formação final da parede, levemente
negativa, onde está o crux. Potter optou por
não escalar a parte inicial da via por causa
de rochas soltas e pela altura, que não
proporcionava uma queda com tempo suficiente
para abrir o BASE.
Pela sua estratégia, mais
“segura”, ele teria 15 segundos de vôo a
partir das enfiadas mais altas da via,
garantindo tempo para abrir o pára-quedas,
no caso de uma queda.
Potter conclui a via e saiu caminhando pelo seu cume
como toda calma do mundo. Todos os movimentos do
cara fora, registrados pelo cineasta outdoor Peter
Mortimer e integram o filme The Sharp End, lançado
nos Estados Unidos em setembro. O trailer você
assiste no
youtube.com.
Depois de tantas inovações é sentar e esperar as
novas tendências de Potter, sempre inventado um
forma nova de levar o termo “Se joga” ao limite.
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