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A caça às bruxas andinas.

Cronistas espanhóis associaram a religião indígena a um culto ao diabo, chamando-os de idólatras. Conseqüentemente, durante o século XVI começam no Peru as campanhas de extirpação de idolatrias, que tinham por objetivo terminar com toda a espécie de ídolos e rituais, considerados por eles, heréticos. As mulheres foram particularmente perseguidas e acusadas de praticarem feitiçaria, pois desempenhavam um papel importante de resistência frente à colonização espanhola, já que eram dogmatizadoras da religião indígena e revitalizadoras de antigas crenças.

A idolatria contradizia o cristianismo, visto que repousava sobre uma adoração de criaturas, enquanto o cristianismo pregava a adoração do Criador, ou seja, Deus . Para tanto, seguiu-se em terras andinas, os passos da inquisição européia, utilizando a repressão para suprimir, extirpar todo e qualquer vestígio de religião que não fosse a cristã.

Obras, como o Directorium inquisitorum ou Manual dos inquisidores e o Malleus maleficarum , serviram para fundamentar os Concílios de Lima , que eram os regulamentos de combate às heresias indígenas. O Directorium descrevia as categorias de heréticos a serem reconciliados ou “relaxados ao braço secular”, quando necessário fosse. Os autores de Malleus, atribuíram às mulheres as artes maléficas, visto serem estas marcadas pelo pecado original de Eva e mais fracas diante das tentações do demônio. Essa obra tratou em detalhes a maneira demoníaca como as bruxas agiam e como era possível identificá-las, servindo de guia para os inquisidores e aconselhando-os para que não aceitassem o arrependimento como motivo para não condená-las à fogueira, visto serem elas perniciosas à cristandade.

Nos três Concílios de Lima, datados respectivamente de 1551, 1567 e 1568, foram tratados os principais objetivos da extirpação de idolatrias e a forma como deveriam ser castigados aqueles que fossem acusados de idólatras. Chamou-se a atenção, para que fossem perseguidos com mais intensidade os feiticeiros e dogmatizadores, devendo estes serem submetidos aos mais severos castigos, inclusive a pena de morte.

No início da campanha de extirpação, houve disputas entre o clero regular, que tinha uma postura indigenista favorável a uma evangelização por persuasão e não pela violência , e o clero secular, favorável às extirpações. Nesse período, criou-se o cargo de juiz visitador, com o intuito não só de extirpar a religião andina, mas também de liquidar os doutrineiros regulares, submetendo-os ao seu poder e acusando-os de explorarem a população indígena e de não conhecerem as línguas vernáculas, o que dificultava a predicação.

De 1610 a 1660, a extirpação de idolatrias teve seu período de maior atividade, e apesar dos confrontos entre o clero regular e o clero secular, a partir de 1610, a Companhia de Jesus conseguiu empreender sua campanha de cristianização. Seguindo uma política missioneira relativa à zona andina, conforme foi tratada por José de Acosta, e usando critérios indigenistas e coletivistas, os jesuítas conseguiram alcançar a elite indígena através do Colegio del Príncipe, em Lima, onde os filhos de curacas (chefes locais) eram educados. Para além disso, criaram a prisão para feiticeiros, a Casa de Santa Cruz, com a finalidade de suprimir a elite de sacerdotes da religião indígena. A Companhia praticamente dominou religiosa e culturalmente o território peruano nesse período.

A Inquisição inicial queria tão somente acabar com as heresias de indivíduos já integrados à cultura hispânica, enquanto a extirpação, segundo Pierre Duviols, era a filha bastarda da inquisição, instalada em Lima em 1571 e da evangelização, pois tinha por projeto a destruição das religiões andinas.

Houve nesse período um processo de aculturação da população indígena, por parte dos visitadores, e por isso, as “bruxas” mais perseguidas eram as dogmatizadoras, visto serem as que promoviam uma contra-evangelização.

A tentativa de ocidentalização da América se deu através da evangelização e da extirpação de idolatrias, através da reprodução de lógicas mentais da velha Europa no Novo Mundo e uma prova disso, é o transporte para os Andes do diabo e de sua aliada, a bruxa. Porém, o mundo andino não conhecia a noção do mal encarnado em uma figura satânica, e sim uma visão dialética em que o bem e o mal são complementos. Houve sim, uma aculturação desse termo, podendo se exemplificar com o caso dos hapiñunos, que seriam fantasmas ou duendes, que foram posteriormente transformados em forças diabólicas derrotadas por Santo Tomás, conforme os relatos de Pachacuti Yamqui. Desta forma, os inquisidores conseguiam que os acusados acabassem por confessar a ligação com o diabo, pois essa noção européia acabou por mesclar-se com as estruturas simbólicas indígenas. Quanto à fragilidade moral feminina, que segundo a concepção européia, explicava a existência de um grande número de bruxas, também não está de acordo com a visão indígena, que ao contrário, conferia à mulher importante papel na manutenção e reprodução da existência social.

Hoje entre os mineiros, ainda pode ser visto o resultado desse processo de evangelização. Antes de começar a extração do minério, eles tomam álcool puro, a 96%. Reza a tradição que, pelo menos, uma vez por semana, eles façam um ritual ao Tio, misto de Deus-Diabo que, hoje em dia, é considerado o protetor das minas.

Eles oferecem cigarro, folha de coca e, claro, um trago de álcool ao Tio, como reverência por cuidar de suas almas durante o trabalho. A figura do diabo como protetor se originou da estratégia usada pelos espanhóis que, na época da colônia, não entravam nas galerias. Para controlar o desvio de mineral, eles inventaram a figura do diabo que é dono de todas as coisas sob a Terra, assim como Deus é o senhor de tudo que está sobre a Terra.

Os indígenas, então amedrontados pela figura do diabo criada pelos espanhóis, passaram a chamá-lo de Tio. O nome vem de Dios, que é Deus em espanhol, cuja letra "d" passou a ter o som surdo porque não existe como fonema na linguagem indígena quéchua. As tribos quéchua ainda existem na Bolívia e sua língua é falada entre eles. Nas ruas de Sucre, por exemplo, cidade a 300 quilômetros de Potosí, índias quéchua vendem amendoim e outras guloseimas. Como são muito pobres, outras andam pelas ruas pedindo esmolas.

Na sociedade andina havia conhecedores de ervas, soldadores de ossos e os curandeiros, mas como na Europa, dizia-se que esse tipo de conhecimento só era concedido aos seguidores do diabo, a idolatria, o curandeirismo e a bruxaria acabaram sendo confundidos, sendo esta última, uma invenção hispânica.

Por meio de tortura, os visitadores conseguiam as evidências que necessitavam para condenar o acusado, assim um grande número de curandeiros confessaram ter recebido seu conhecimentos de ervas através de pactos demoníacos.

Os deuses andinos estavam perdendo a força diante das adversidades coloniais, estavam se calando e conforme Todorov é necessário ter o domínio dos signos para que se possa manter o poder. O papel das bruxas-dogmatizadoras nas comunidades, era de suma importância para a manutenção da sabedoria e rituais indígenas, pois simbolizava a resistência ao sistema colonial, fazendo com que a desestruturação do mundo andino sob a dominação espanhola, nas palavras de Wachtel, ao contrário de ter significado uma decomposição ou o nascimento de um mundo novo, fosse a sobrevivência de estruturas antigas, apenas fora do contexto coerente em que se situavam.

A perseguição às bruxas, por parte dos visitadores foi tal, que podemos comprovar através da Relação da visita de extirpação de idolatrias de Cristóbal de Albornoz, o número consideravelmente maior de mulheres que foram acusadas de feitiçaria, tendo sido a maioria condenada a serviços perpétuos para Igreja, podendo levar-nos também à suposição de que essa seria uma forma de escravizar mão-de-obra indígena, fato este que não desenvolveremos neste trabalho, por falta de comprovação documental suficiente.

Na obra de José de Arriaga, aparece um exemplo de aculturação de rituais indígenas extremamente significativo, que é quando este descreve a ação de feiticeiros que constituíam sociedades secretas e que atuavam quando os outros dormiam, entrando nas casas e sugando um pouco do sangue da pessoa a quem queriam matar e depois levavam esse sangue ao grupo, que o cozinhava e comia. Alguns dias depois, a pessoa de quem retiraram o sangue, morria. Adoravam o demônio, que aparecia em forma de leão ou tigre, mantinham relações homo e heterossexuais durante as festas e depois todos beijavam-lhe o traseiro. Essa, nada mais é, que uma descrição da comunhão diabólica do sabá, ou seja, através de comportamentos ritualísticos andinos, Arriaga sugere o sabá, o que leva a crer que os bruxos andinos tenham sido bastante atormentados pelos inquisidores para que estes conseguissem esses relatos.

A explanação acima, reitera a afirmação de Irene Silverblatt, sobre ser a bruxaria andina uma invenção espanhola. O processo de aculturação permitiu que as estruturas indígenas fossem adaptadas às necessidades inquisitoriais, mostrando mais uma vez ter sido fundamental o papel das “bruxas” andinas na manutenção das crenças indígenas.

Na maioria dos casos, a extirpação de idolatrias usou métodos de tortura, como açoites, a tosa de cabelo ou ter de andar nu encima de uma llama. O acusado poderia ter seus bens confiscados, ser condenado a trabalho provisório ou definitivo para a Igreja, como já mencionamos, ou até mesmo, à pena de morte. Na Espanha, ser condenado a andar nu era considerado humilhante, mas entre os índios não teve a mesma conotação, visto serem esse solidários contra a Igreja conquistadora. Já a tosquia de cabelo, significava uma perda imensurável, pois estes tinham valor de distinção entre os diversos ayllus (sistemas de parentesco) e os extirpadores tinham consciência disso. O confisco de bens entre uma população que vivia comunitariamente, era um fato trágico, pois significava o empobrecimento de toda a comunidade.

Durante os autos-de-fé, eram queimados ídolos e, por vezes, os “mallqui” (múmias de antepassados). Os índios não aceitavam que os corpos fossem enterrados, devido a suas convicções religiosas de haver vida após a morte, por isso, sempre que podiam, resgatavam os corpos de familiares enterrados no cemitério da Igreja. Os inquisidores, revoltados, mandavam queimar os cadáveres, porque na concepção cristã, estavam condenando-os ao inferno. Ao fazerem isso, estavam na verdade acabando com as raízes deste culto, ou seja, matando aquela cultura através de seus mortos.

Como na Europa, a luta contra a heresia nos Andes teve fins políticos, pois a população que queria escapar aos rigores da Inquisição, como os que acabamos de expor, era forçada a entrar nas reduções, onde era evangelizada e controlada politicamente, facilitando a cobrança de tributo. No caso das mulheres, especificamente, a perseguição foi maior, não só por serem as “bruxas” as companheiras do diabo, conforme a mentalidade européia da época, mas por quê estas eram temidas pelos espanhóis e seus aliados indígenas, por representarem a resistência ao mundo colonial, visto que tinham grande poder dentro de suas comunidades, participando de reuniões importantes do povoado e sendo inclusive temidas pelos curacas (chefes locais). Eram as detentoras da sabedoria e rituais indígenas e utilizavam esses conhecimentos para destruir o desequilíbrio provocado em seu mundo pelo domínio espanhol.

A cultura andina referencia a divindade mulher como Pacha Mama, a Deusa, que produz, que engendra. Sua morada está no Carro Branco (Nevado de Cachi), e se conta que no cume há um lago que rodeia uma ilha. Esta ilha é habitada por um touro de chifres dourados que ao mugir emite pela boca nuvens de tormenta.

O mito de Pacha Mama referia-se primitivamente ao tempo, talvez vinculada de alguma forma com a terra: o tempo que cura as dores, o tempo que distribui as estações, fecunda a terra. Pacha significa tempo em linguagem kolla, porém com o transcurso dos anos, as alterações da língua, e o predomínio de outras raças, terminou confundindo-se com a terra.

Dia primero de agosto é o dia de Pacha Mama. Nesse dia se enterra em um lugar próximo da casa uma panela de barro com comida cozida. Também se põe coca, yicta, álcool, vinho, cigarros e chicha para alimentar Pacha Mama. Nesse mesmo dia deve-se pôr cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama enrolando-se à esquerda. Estes cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço, para evitar o castigo de Pacha Mama.

Pachamama é considerada a Mãe dos homens, é ela que amadurece os frutos e multiplica o ganho. Tem o poder que lhe permite acabar com as geadas, pragas, assim como outorga sorte as casas. Também é conveniente solicitar sua permissão e proteção para viajar por territórios montanhosos. A sua influência benéfica impede que o "mal das alturas" afetem os viajantes.


Dizem que Pachamama é ciumenta e vingativa, mas nunca deixa de favorecer aqueles que ganham a sua simpatia. Ela interfere em todos os atos da vida e os demais deuses indígenas lhe devem obediência. Quando as pessoas deixam de respeitá-la, esta Deusa-dragão manda terremotos para lembrar os homens de sua presença.

As Múmias dos Chinchorros

O deserto de Atacama, a Norte do Chile a Leste da Cordilheira de Domeyko, é o lugar mais seco à face da Terra. Estende-se desde o sopé dos Andes, numa faixa de 150Km para Leste, até à orla do Oceano Pacífico. Poucos sinais de vida ali existem e, em certas zonas, não chove há já milhares de anos. Mas foi a própria secura do Atacama que fez dele o guardião perfeito de um tesouro único Enterrados nas areias encontram-se os segredos íntimos de um velho mundo, o legado de um povo da Idade da Pedra que acreditava ser capaz de vencer a morte.

A cidade de Arica, na costa do Pacífico junto da fronteira do Chile com o Peru nos limites do deserto Atacama, foi em tempos uma pequena aldeia de pescadores. Viver dos alimentos que o oceano dá é para a população local uma tradição que se perde no tempo. É um modo de vida que fixou neste local os primeiros povoadores e que tem sustentado, desde então, os naturais da terra.

Tornou-se bem claro há quanto tempo existe neste local população humana em 1983, quando uma sensacional campanha de escavações deixou a descoberto um antigo local de enterramentos nos arrabaldes da povoação. Os corpos e os artefatos aqui enterrados confirmaram que há 9000 anos este povo também vivia do mar. Mas a escavação revelou ainda algo de muito mais surpreendente. Os 96 corpos enterrados em camadas tinham sido todos mumificados. Eram as múmias mais antigas do mundo. A mais antiga tinha quase 9000 anos.

Uma remota comunidade de pescadores da América do Sul tinha praticado a arte da mumificação antes mesmo do nascimento da civilização e pelo menos 2000 anos antes dos lendários preparadores de múmias do antigo Egito.

Já há algum tempo que se sabia que um povo antigo vivera outrora na costa de Atacama, na extremidade do deserto. Foi-lhes dado o nome de Chinchorros da palavra espanhola para designar uma pequena rede de pesca em forma de bolsa (hoje em dia a palavra chinchorro designa quer as redes em forma de bolsa para pesca, quer as redes de prender a dois suportes onde se pode dormem os warao, uma etnia sul-americana. É assim, uma palavra que pode ter um significado muito preciso ou que pode ser usada para significar "rede" de uma forma genérica). Algumas destas bolsas foram encontradas enterradas junto dos seus possuidores nas sepulturas dos Chinchorros. O estilo de vida deste povo era muito primitivo. Não conheciam os metais nem a cerâmica, nem a roda ou mesmo os animais de carga. Não deixaram quaisquer sinais de escrita nem construções duradouras. Eram muito simplesmente um povo da Idade da Pedra.

Mas a maneira como tratavam os mortos era tudo menos simples. Os Chinchorros mumificavam todos os seus mortos sem olhar a posição social: homens, mulheres e crianças. E o mais estranho é que as múmias não eram logo sepultadas, antes eram mantidas em exposição junto dos vivos.

Desde a descoberta de Arica em 1983 que a investigação sobre os Chinchorros se tem desenvolvido imenso atraindo a curiosidade de investigadores de outras áreas que não a arqueologia e a antropologia. Neste momento estamos apenas a começar a compreender quem eram os Chinchorros. O fato de haver uma grande diversidade de investigadores de diferentes especialistas, todos a tentarem lançar luz sobre quem seriam e como seriam os Chinchorros, tem feito avançar o conhecimento que temos sobre este povo tão antigo. O fato é que, o povo que, tanto quanto se sabe, deu origem à arte da mumificação tinha sido até agora simplesmente ignorado. Uma das razões pelas quais os Chinchorros não receberam muita atenção enquanto objeto de estudo é que praticamente não há materiais culturais para estudar uma vez que esta população não tinha grandes edifícios ou ferramentas muito desenvolvidas. A sua tecnologia era uma tecnologia muito básica virada para a resolução dos problemas práticos relacionados com a sobrevivência, dando também ênfase à morte.

As escavações que decorrem neste momento serão as últimas escavações em Arica. A razão para tal remonta à famosa escavação de 1983. Os 96 corpos recuperados consagraram os Chinchorros como os primeiros e mais prolíficos preparadores de múmias que o mundo conheceu. Mas também deixaram os cientistas com mais corpos em mãos do que aqueles que podiam tratar o que levantou o problema da preservação. Por um lado era muito positivo e estimulante encontrar tantos corpos mas por outro lado a descoberta causou um sentimento contraditório pois é muito difícil conseguir preservar tantas múmias. No entanto, era uma "operação de salvamento" que tinha que ser realizada e com rapidez. O sítio das escavações pertencia a uma companhia privada de fornecimento de água que interrompeu as suas obras apenas o tempo suficiente para que as múmias fossem retiradas.

Foram levadas para o museu de San Miguel de Azapa, que fica a cerca de 15Km de Arica, faz parte da Universidade local e é um prestigiado centro de arqueologia. Para guardar o grande número de crânios, ossos e corpos resultante da escavação o pessoal teve que deslocar vasos e outros artefatos menos importantes dos locais onde estavam guardados. Até as múmias Incas, em tempos a principal atração do museu, foram relegadas para segundo plano a favor dos recém descobertos tesouros dos Chinchorros. Num anexo com ar condicionado e temperatura controlada ficaram guardadas as múmias mais valiosas e mais bem conservadas, à espera dos exames do especialistas.

Uma típica múmia Chinchorro está envolvida numa capa de juncos, possui uma máscara facial de argila que suporta uma grande cabeleira. A múmia mais bem conservada do museu é uma rapariga cuja máscara facial é de argila escura e por isso o pessoal do museu chama-lhe a Madonna Negra. A coleção inclui centenas de fragmentos de múmias entre os quais inúmeros crânios que já não possuem as máscaras faciais de argila mas que contêm pistas vitais acerca da saúde, condições de vida e até mesmo das causas de morte entre os Chinchorros.

A primeira múmia a ser encontrada no local, em 1915, foi a de uma criança. Nessa altura, ninguém fazia ideia de que tinha milhares de anos. Hoje em dia já se encontra no meio de outros Chinchorros (talvez até membros da sua própria família).

A história dos Chinchorro é fascinante. A sua cultura incluía a prática de formas e mumificação muito elaboradas 3000 anos antes de se iniciar a mesma prática no Egito. Apesar de a inicio se ter pensado em poder fazer comparações com o Egito a ideia teve que ser abandonada pois as histórias destas duas civilizações vem de direções e caminhou para direções muito diversas. No seu todo são duas histórias totalmente diferentes.

Apesar de tudo as múmias do Egito e do Chile acabam por ter alguma coisa em comum. Sempre que pensamos em múmias inevitavelmente acabamos por pensar no Antigo Egito. Os antigos egípcios eram de fato mestres na arte da mumificação. O corpo era levado aos embalsamadores que lavariam o corpo, retirariam os órgãos internos deixando apenas o coração (o cérebro também era retirado). O corpo seria então deixado a secar durante 40 dias. Depois seria lavado novamente e untado com óleos e resinas o que servia para selar a superfície da pele através do fechar dos poros e de uma espécie de "plastificação" natural da pele. Seria então embrulhado em tecidos, normalmente tiras de linho, depositado no sarcófago e devolvido à família.

Nas arribas costeiras onde está a centrar-se a mais recente campanha de escavações há múmias por todo o lado, logo pouco abaixo da superfície da areia o que permite descobrir as múmias exatamente onde foram depositadas há milhares de anos. O que se encontra nestas múmias em comum com as egípcias é o fato de também estas múmias surgirem numa zona de deserto, os processos de mumificação natural (por ação do ar quente e seco) dos corpos que não foram mumificados artificialmente e, naqueles que o foram, os mesmos processos de embrulhar o corpo em tecido sendo depois enterrado no deserto.

As técnicas egípcias de mumificação foram inspiradas pelo deserto do Sahara e é provável que as primeiras múmias dos Chinchorros se tivessem formado acidentalmente no deserto de Atacama. Uma múmia é um cadáver em que o processo normal de decomposição foi suspenso. Há cerca de 9000 anos, os Chinchorros limitavam-se simplesmente a envolver os seus mortos em sudários de junco e a enterrá-los depois cuidadosamente no deserto sabendo que a secura das areias do Atacama faria o resto. Lentamente, ao longo de um período milenar, foram adaptando este fenômeno natural até chegarem a um elaborado ritual post-mortem que era tudo menos natural.

A sua técnica de mumificação era absolutamente única. Com lâminas de pedra lascada arrancavam toda a carne, esvaziavam o corpo retirando todos os tecidos moles e o sangue. Depois reforçavam o esqueleto atando estacas de madeira aos ossos. As cavidades do corpo eram preenchidas então com ervas, cinzas e pêlo de animais. A pele era então resposta no lugar e cozida. Braços e pernas eram também reforçados com paus e depois, um por um, envolvidos em tecido vegetal. O corpo, por inteiro, era coberta com uma espécie de pasta de cinza branca que se pintava depois com manganês preto. Uma máscara de argila com uma sofisticada cabeleira feita de cabelo humano cobria o rosto e a cabeça. Uma vez pronta, a múmia estava apta a ser transportada acompanhando os vivos. Era uma efígie robusta, muito diferente do esplendor pictórico dos egípcios.

Ironicamente, a imagem que nos é tão familiar do Antigo Egito não é sequer das múmias. Quando olhamos para o contentor externo temos que nos lembrar de que isso simplesmente não é o indivíduo, não é o corpo, mas apenas a forma externa que o cobre. O corpo, no caso da cultura dos Chinchorros, não pode ser separado do embrulho exterior (como seria no caso dos egípcios). No caso dos Chinchorros trata-se de um pacote completo e indissociável. O corpo mumificado, com os juncos e a máscara são incrivelmente simples e desprovidos de sofisticação e, no entanto, acabam por ser muito modernos na sua aparência. Nas máscaras faciais são deixados apenas os traços faciais básicos. Apesar disto estas múmias têm algo que nos emociona de uma forma muito profunda e isto é algo que os egípcios acabaram por nunca saber como fazer.

O mais notável de tudo, e é um aspecto em que se distinguem de todos os outros é que os Chincorros aplicavam os seus sofisticados processos de mumificação tanto nas crianças como nos adultos, como se quisessem conservar junto de si todos os seus mortos ou como se, de certo modo, sentissem que eles ainda continuavam vivos.

Na escavação da encosta junto ao mar, a equipa de arqueólogos responsável pelo sítio, pôs a descoberto fortes indícios de que aquele sítio era um povoado Chinchorro com milhares de anos. A localização era ideal. Trata-se de uma encosta arenosa e fortemente inclinada. Camada após camada puseram à descoberta conchas de moluscos e outros objetos igualmente reveladores. Aquilo que estas camadas põem a descoberto é o modo de vida dos Chinchorros, um povo de caçadores e coletores da Idade da Pedra que tinha abandonado o seu modo de vida nômade em troca de uma existência mais estável junto à costa. Permaneceram nesta zona durante milhares de anos pois aqui tinham tudo quanto necessitavam para uma existência relativamente confortável. Havia leões marinhos e peixe com fartura. As agulhas dos cactos serviam para fazer os anzóis. Dos juncos do vale à beira-rio, das peles dos animais, faziam vestuário e esteiras, sólidas redes de pesca, delicados ornamentos corporais e sudários para envolver os mortos.

O quadro que se pode fazer com estes dados é o de um povo primitivo mas muitíssimo criativo cuja imaginação e energia espiritual não se manifestavam na cerâmico, no mobiliário ou nas construções, mas sim na arte misteriosa de mumificar os mortos. De qualquer forma este quadro também mostra que não tinham uma vida muito saudável. A análise dos crânios demonstra que a dependência do mar tinha o seu preço. Muitos indivíduos do sexo masculino sofriam de problemas auditivos e doenças do canal auditivo que levavam à surdez. Doenças associadas à apanha de mariscos e outros animais marinhos cuja captura exige o mergulho em água frias. Nos crânios também é freqüente encontrar vestígios de fraturas provocadas por golpes violentos o que leva a supor que a vida entres os Chinchorros não era nenhum Jardim do Éden. A violência parecia ser uma coisa vulgar. Junto à costa a vida era turbulenta.

Já vimos como as múmias dos Chinchorros, apesar de não possuírem o grau de evolução pictórica das egípcias, eram muito sofisticadas. Mas quem fazia, de entre os Chinchorros, as múmias? Quem era responsável pela mumificação dos corpos? Devido aos dados recolhidos não há forma nenhuma de dizer que teriam sido as mulheres ou os homens, os mais novos ou os mais velhos que se encarregavam dessa tarefa. A única coisa que se pode fazer é presumir baseados nos dados recolhidos e na comparação desta sociedade da Idade da Pedra com outras de períodos mais ou menos semelhantes, que seriam os homens quem iria para o mar mergulhar e pescar e que seriam as mulheres que estariam encarregues de preparar os alimentos recolhidos pelos homens num processo semelhante a qualquer outra sociedade humana deste período. Assim, presumivelmente seriam as mulheres as únicas a terem os conhecimentos necessários (que aprendiam na preparação de alimentos) para esfolarem os corpos, retirar os tecidos moles do interior do corpo e depois reconstruí o corpo cosendo a pele sobre a múmia. Por outro lado poderia ser que entre as mulheres houvesse maior propensão e preocupação com a preservação dos mortos, uma vez que as mulheres tinham que lidar com freqüência com a morte devido à elevada taxa de mortalidade infantil das populações daquela época. Pode ter sido que o inicio da mumificação tivesse sido iniciado ou compelido devido aos fortes laços entre mães e filhos (que levaria uma mãe a desejar manter o seu filho consigo a todo o custo, mesmo depois de morto).

A forma como os Chinchorros trabalhavam os mortos mostra um grau de sofisticação no manuseio de ferramentas e materiais muito elevado. Por outro lado estavam extremamente familiarizados com a anatomia humana. Sabiam remover os órgãos internos para evitar a decomposição e as costuras na pele depois de concluída a múmia eram realizadas nos mesmos locais que os egípcios usavam o que revela um conhecimento dos processos necessários e uma atenção ao detalhe fabulosos. Por outro lado, a forma como a múmia era depois vestida e cuidada mostra uma preocupação e, aparentemente, um carinho muito fora do vulgar para com os seus mortos.

Mumificar as crianças parece que era um procedimento muito caro aos Chinchorros. Nas múmias dos mais novos é notório um cuidado tão extremo com os dos mais velhos com as cabeleiras muito elaboradas aplicadas às máscaras de argila. Por outro lado, a maior parte das múmias artificiais parecem ser de crianças. Na maior parte das outras culturas antigas as coisas não se passavam assim, uma vez que às crianças, na maior parte dos casos, nem sequer era dado um funeral minimamente decente. Noutros sítios, a mumificação estava habitualmente reservada para os privilegiados, os ricos e poderosos pois a mumificação é uma arte que requer tempo, energia e dedicação. Apesar disso os Chinchorros mumificavam toda a gente de forma requintada milhares de anos antes do egípcios. Porque será que o faziam? E de onde vinha este culto extraordinário?

Os Chinchorros foram os primeiros a chegar à costa de Arica e a instalarem-se permanentemente há 9000 anos. Mas as suas origens são ainda um mistério. Há três teorias mais populares quanto à origem deste povo. Podiam ter vindo de barco de um sítio qualquer do Pacífico, mas não existem quaisquer provas que secundem esta teoria. Podiam ter-se deslocado ao longo da costa vindos de Norte ou de Sul e para explicar esta teoria existem alguns indícios. Por outro lado podem também ter vindo das montanhas. Ao descer das montanhas podiam ter encontrado os vales que são juncados de rios magníficos e que vão desaguar na costa. Era possível que, após terem encontrado os vales e os rios tivessem seguido estes últimos até chegarem à costa. A costa teria lhes parecido um pequeno paraíso em comparação com o deserto que tinham atravessado (mesmo que o tivessem feito ao longo dos rios) uma vez que estava repleta de vida: bivalves, mariscos, moluscos, leões-marinhos, ervas, sementes, etc...

Esta última teoria, segundo a qual os Chinchorros seriam um povo da Montanha que teria descido até à costa é fundamentada com vestígios encontrados a mais de 100Km, no cimo dos Andes, onde especialistas em povos nômades dos Andes encontraram recentemente uma mandíbula de tubarão com mais de 10.000 anos numa gruta a mais de 3.000m de altitude. É uma indicação de que o povo que em tempos viveu nessa gruta poderia relacionar-se com a zona costeira. Mas se as populações desse tempo viviam em grutas a mais de 3000m de altitude o que aconteceu para que há 9000 anos se verifiquem sinais de um boom de povoados junto à costa? Tudo parece apontar para um cataclismo ambiental que alguns indícios parecem confirmar que teria levado as populações das montanhas para a zona costeira. É muito provável que os Chinchorros fossem um povo nômade que uma grave seca obrigou a descer dos Andes até à costa. Mas antes de chegarem à costa tinham que atravessar o impiedoso deserto de Atacama. Os humanos sempre quiseram explorar novos territórios, sempre quiseram saber o que está "do outro lado da montanha" mas os Chinchorros parecem ter sido os primeiros a usar os "corredores" de vales e rios dos Andes para o fazerem.

No museu de San Miguel de Azapa, a tarefa de reunir e catalogar as relíquias dos Chinchorros tem prosseguido desde o achado de 1983. Os computadores do museu iniciaram agora uma base de dados com todos os materiais disponíveis sobre este povo. Trata-se de um importante trabalho que está permanentemente a ser atualizado. Dois investigadores americanos que costumam usar técnicas de sondagem sem danificar as amostras estudaram também as múmias à sua maneira. Basicamente recorreram a técnicas como a endoscopia, o raio-X e TAC para avaliar as múmias. Os dados apurados através deste sistema de análise foram também guardados na mesma base de dados do museu.

Estes investigadores fizeram radiografias das múmias no hospital local. A idéia destas análises é poder adicionar dados às recolhas anteriormente feitas de forma a que se possa verificar se estes novos dados podem ajudar a tirar algumas novas conclusões sobre as múmias ou sobre os Chinchorros. O tipo de coisas que os raios-X podem ajudar a determinar são dados como a idade relativa do indivíduo mumificado, a presença ou ausência de alguns tipos de patologias, anormalidades nos ossos (como cortes, fraturas, objetos estranhos inseridos nos ossos, etc) e, com muita sorte, pode conseguir-se determinar a causa da morte do indivíduo.

Nas múmias dos Chinchorros é freqüente descobrir-se que os indivíduos são jovens. Foram também descobertos alguns cortes longitudinais nos ossos das múmias, mesmo em alguns corpos mumificados naturalmente pelas areias do deserto. Este tipo de golpes foi infligido após a morte. O TAC mostra estes cortes de forma nitidamente visível em cada secção transversal produzida pelo TAC ao longo de quase todo o comprimento dos fêmures. Esta característica nunca havia sido descoberta noutras partes do mundo. A única razão para que os fêmures tenham sido cortados longitudinalmente seria para permitir chegar ao tutano do osso de forma a retirá-lo. As implicações deste fato, apesar de não haver certezas, pode ser a existência de operações post-mortem devido a práticas de canibalismo. Isto poderia ajudar a explicar o porquê de os Chinchorros arrancarem de forma tão particularmente cuidadosa toda a carne dos corpos antes de os mumificarem.

A possibilidade de actos de canibalismo neste caso não tem a ver com nenhuma falta de provisões, tratar-se-ia antes de um canibalismo ritual relacionado com a forma como este povo tratava os seus mortos. Trata-se de uma hipótese que lida com um canibalismo cultural (como ele é também conhecido noutros povos) por oposição ao canibalismo que resulta da necessidade de sobrevivência de um determinado grupo de indivíduos (como é o caso do canibalismo que os indícios indicam na Ilha da Páscoa, por exemplo).

De qualquer das formas, se esta hipótese se verificasse correta estaríamos perante algo de único em todo o mundo pois neste caso o canibalismo é uma prática relacionada diretamente com o culto dos mortos. Isto aponta para uma estrutura mental social e individual totalmente nova que nunca havia sido descoberta e é isso que os Chinchorros têm de tão fascinante. A ideia de que os Chinchorros possam ter consumido a carne dos seus jovens mortes é algo bizarra mas os exames radiológicos revelaram ainda outros indícios de difícil explicação.

Juntamente com múmias de crianças foram encontradas formas que poderiam ser bonecos. O museu mandou também estes bonecos para análise radiológica e descobriu-se que, de facto, se tratava de fetos mumificados. Ora, se mumificar crianças já de si é algo de único, mumificar nados-mortos é absolutamente bizarro e de explicação extremamente difícil! É uma ideia de alguma forma estranha a de uma sociedade "primitiva" com claros indícios de violência decorrente do relacionamento interpessoal, com indícios de canibalismo, mas que, apesar de tudo, respeitava de tal forma os seus mortos que ia ao ponto de querer preservar mesmo as crianças que não chegaram a nascer. Este tipo de dados parecem apontar para uma sociedade que, apesar de "primitiva", não deixava por isso de ter uma noção de alma muito presente enquanto indivíduos. Os dados também parecem indicar que o seu conceito de alma era também importante para si enquanto grupo organizado. De fato, os Chinchorros pareciam não atribuir muita importância a aspectos mais materiais da vida (mobiliários, cerâmica, edifícios) mas pareciam possuir uma idéia já muito desenvolvida da importância da "alma" e dos seus próprios corpos. A mumificação dos seus mortos parece indicar que os Chinchorros tinham noções muito desenvolvidas de que a morte era uma passagem para outro estado e que haveria algum elemento presente nas duas vidas (a pré-morte e a pós-morte) que necessitaria do corpo preservado.

A mumificação poderia ser uma maneira de manter os entes queridos quase vivos através da presença do seu corpo apesar de a sua alma ter passado para outro estádio da vida. De qualquer forma, quanto aos porquês dos Chinchorros terem produzido as primeiras múmias conhecidas do mundo são mais as perguntas que existem do que as respostas. Não sabemos sequer se este povo vivia obcecado com a morte ou com a vida.

Um aspecto curioso e que ainda não tem explicação é o de este povo se ter dedicado à mumificação dos seus mortos durante perto de 4000 anos e depois, misteriosamente, ter parado.

Fonte:

REVISTA DE HISTÓRIA REGIONAL
Vol. 4. - nº 2 - Inverno 1999
A Inquisição espanhola e a bruxaria andina:
evangelização e resistência
Ana Raquel M. da C. M. Portugal

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