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13/12/2008
John Krakauer
Atila Barros
Quem nunca leu ou ouviu falar do
livro No Ar Rarefeito? O livro de montanha mais
conhecido no mundo quando o assunto se trata de
tragédias no Everest. Se você já passou raiva lendo
sobre a disputa de ego dos guias de montanha Scott
Fischer e Rob Hall, com certeza vai lembrar-se de
John Krakauer. |
John Krakauer nasceu em Brookline,
Massachusetts em 12 de Abril, 1954. Mudou-se para
Corvallis, Oregon aos dois anos. Antes de pensar em
ser escritor, John foi jogador tênis e chegou a
competir pela Corvallis High School por alguns anos,
mas passava maior parte dos seus momentos livres nas
montanhas do seu estado. Mais tarde, graduou-se em
Estudos Ambientais em 1976 no Hampshire College, em
Massachusetts.
A vida de John foi meio conturbada e
cheia de mudanças radicais. Um ano depois de se
graduar, em 1977, conheceu a jovem, Linda Mariam
Moore, com quem se casou em 1980. Nos anos que se
seguem, a paixão pelo montanhismo toma conta de
John, e em 1983 ele abandona o trabalho de
carpinteiro e pescador de salmão para tornar-se
escritor, ou melhor, escritor de esportes de
montanha para ser mais objetivo. Logo depois de
largar seu emprego, John se joga no mundo do
montanhismo e tenta se auto promover escalando
algumas montanhas consideradas difíceis. Em seu
livro Sobre Homens e Montanhas ele relata com emoção
e maestria, logo no primeiro capitulo, a sua
investida frustrada na face norte do Eiger, uma das
quatro paredes verticais mais difíceis da Europa
ocidental. E também narra sua perigosa aventura na
escalada do Polegar do Diabo (Devils
Thumb, 1977), quando ainda era um garoto de
pouco mais de vinte anos.
Depois de algumas tentativas frustradas de ganhar a
vida com o montanhismo, John pensou em desistir e
retomar sua vida como carpinteiro, movido pela falta
de dinheiro. Mesmo retomando em parte sua vida
anterior, não deixou de escalar e passou a escrever
sobre suas aventuras, como sua empreitada de 1992,
quando escalou a face ocidental do Cerro Torre na
Patagônia.
Com artigos bem elaborados e textos
claros ele chamou a atenção da comunidade de
montanha. John era grande
admirador de Truman Capote de quem recebeu forte
influência no estilo jornalístico, logo deixou claro
sua espontaneidade em suas narrativas.
John foi vencedor do prêmio do Clube
Alpino Americano de literatura sobre montanhismo, e
chegou a ser finalista no Nacional Magazine Award.
Mas John só consegue ganhar o mundo quando começou a
escrever para a revista Outside, da qual também é
editor. Hoje John escreve para importantes revistas
entre elas a National Geogarfic e a GEO. Escreve
também para as publicações da Playboy, Rolling
Stone, Architectural Digest e Smithsonian. Em 1999
recebeu da American Academy Of Arts And Letters, o
prêmio pelo conjunto de sua obra jornalística.
John alcançou seu maior sucesso em maio de 1996 no
Everest, não por teu feito seu cume, mas por ter
sobrevivido a uma das piores temporadas da montanha
tibetana. O
ano
de 1996 marcou a mais trágica temporada de escaladas
do Monte Everest.
Doze pessoas de diferentes expedições
pereceram na tentativa de escalar os 8.848MT da
montanha mais alta do mundo. No início de 1996,
Krakauer foi contratado pela revista Outside para
fazer uma matéria sobre a crescente comercialização
do Everest. Em março ele se juntou à expedição do
neozelandês Rob Hall, o guia de alta montanha mais
conceituado do mundo, para tentar alcançar com mais
outros sete clientes, que pagaram em média 65 mil
dólares pela aventura o cume do Everest. Hall subira
quatro vezes até o pico entre 1990 e 1995, guiando
vários clientes. Em 1996 havia nada menos que outras
15 expedições (de solistas a grandes grupos) com o
objetivo de chegar lá. Entre elas estava a de Scott
Fischer, um americano de força e determinação
lendárias que escalara o Everest sem oxigênio
suplementar em 1994. Ao mesmo tempo companheiros e
competidores, Hall e Fischer atacaram o cume no
mesmo dia 10 de maio e suas equipes acabaram por se
misturar.
Não se sabe bem por que, Hall e
Fischer não foram rigorosos com o horário em que
todos deveriam dar meia-volta e começar a descer a
montanha, antes do anoitecer. Foram pegos por uma
terrível tempestade a 8000MT de altitude. No final
da temporada, sete pessoas das duas equipes estavam
mortas, inclusive os dois guias. Escalar os 8848MT
da montanha mais alta do mundo é uma tarefa
duríssima: acima dos oito mil metros o corpo humano
quase pára de funcionar. É necessário oxigênio
suplementar para suportar o ar rarefeito; mesmo
assim, a falta de ar pode gerar alucinações, o
cérebro e os pulmões podem entrar em colapso de uma
hora para outra e o rosto, as mãos e os pés
facilmente se congelam e necrosam. Neste relato
emocionado, Krakauer reconstitui os fatos da maneira
mais precisa possível e faz uma reflexão sobre o
fascínio que uma aventura de tantos riscos exerce
sobre as pessoas e o poder por vezes terrível que os
sonhos podem ter sobre nós.
Uma análise do acidente foi o que ele
escreveu para a revista. A matéria que ele deveria
escrever para a Outside foi entregue cinco semanas
depois da tragédia, mas “com 17 mil palavras, quatro
ou cinco vezes maior que uma matéria convencional de
revista –, fora abreviado demais para fazer justiça
à tragédia”. É o que diz o autor na introdução do
livro No ar rarefeito.
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Por essa reportagem, John
recebeu o prêmio National Magazine. Tão logo
escreveu seu relato em livro com o titulo
“No ar rarefeito;” o mesmo se tornou
bestseller em todo mundo. O New York Times o
elegeu como melhor livro do Ano. John teve
seu livro traduzido para 24 idiomas e também
foi homenageado como o "Livro do Ano" pela
revista "Time". O livro foi um dos
finalistas em 1997 no National Book Critics
Circle Award e um dos três finalistas 1998
para o Prémio Pulitzer de não-ficção. Antes
do livro ser publicado, a reportagem de John
para a Outside não trouxe só prêmios.
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Em seu livro, ele admite que o
material não foi tão preciso quanto deveria ser
porque, entre outros motivos, altitudes elevadas
causam hipoxia cerebral, provocada pela escassez de
oxigênio, que causa confusão mental, desorientação e
falta de coordenação motora. Um dos montanhistas da
expedição chega a afirmar em depoimento que, em
certo ponto, até amarrar os cadarços das botas era
uma tarefa muito complicada. A maioria dos erros
publicados por Krakauer era de pouca importância,
como horários ou o tempo gasto em determinada
tarefa. No entanto, o autor escreveu que um dos
guias da expedição, Andy Harris, morreu pouco antes
de chegar ao acampamento mais próximo do cume ao
cair de uma geleira, em meio à escuridão da
tempestade que atingia o Everest naqueles 10 de maio
de 1996. Duas semanas depois de a revista ir às
bancas, Krakauer, que tinha se tornado amigo do guia
durante a expedição, descobriu que não fora Harris a
vítima, mas um integrante de outra equipe. A revista
recebeu uma quantidade imensa de correspondência
relacionada ao artigo, boa parte criticando
Krakauer, pedindo mais explicações. A Outside
publicou uma correção de autoria do próprio
Krakauer, pedindo desculpas pelo engano sobre a
morte de Harris.
Somadas ao trauma, a polêmica em
torno de sua narrativa da aventura e a vontade de
obter um relato mais preciso do que aconteceu
levaram o autor a escrever o livro. Se o título
indica um relato dramático sobre as mortes dos
alpinistas em 1996, o conteúdo surpreende pela visão
crítica e abrangente do histórico da comercialização
das expedições ao Everest e das condições em que
elas são realizadas. Para escalar a montanha com um
serviço guiado de boa qualidade, um montanhista
chega a desembolsar 65 mil dólares, quantia que
reduz o perfil dos aventureiros a milionários que
adotam a escalada como hobby e nem sempre têm o
preparo necessário para uma subida exigente como a
do Everest. Com preços assim, as escaladas guiadas
também se limitam a duas ou três empresas que
competem constantemente por clientes e publicidade.
A obstinação dos guias em levar todos os integrantes
de suas expedições ao cume é apontada pelo autor
como uma das explicações plausíveis da tragédia. Rob
Hall, guia da equipe de John era dono da mais
respeitada empresa de escaladas comerciais ao
Everest, a Adventure Consultants, seguida de perto
na preferência dos montanhistas por Scott Fischer,
dono da Mountain Madness. Para Krakauer, só essa
febre de competição comercial, mesmo que amigável,
pode explicar a razão pela qual Hall foi até o cume
com um cliente cerca de duas horas depois do
horário-limite estipulado, ao ver todo grupo de
Fischer finalizar a escalada com sucesso, e também
com atraso. Nem mesmo as nuvens que se formavam logo
abaixo do cume do Everest, alarme seriíssimo que
obriga qualquer montanhista experiente a retornar
mesmo a poucos metros do topo, fizeram com que Hall
e Fischer desistissem da escalada. Ambos morreram
durante descida, pegos por uma tempestade que teve
início assim que John Krakauer e alguns outros já
voltavam ao acampamento quatro, o último da
escalada, a 7.600MT de altitude. John questiona seu
próprio papel na jornada. Como jornalista, comenta
que, à medida que se integrava ao grupo, sentia-se
cada vez mais desconfortável em relação aos
clientes. Fora enviado para escrever sobre como eram
as expedições guiadas, e escrevia com naturalidade
sobre os donos das empresas de expedições, já que os
mesmos vinham buscando agressivamente publicidade
para seus produtos. No entanto, sentia certo
desconforto ao escrever sobre os turistas: “Quando
se alistaram nas expedições, nenhum deles sabia que
haveria um repórter na equipe, rabiscando o tempo
todo, registrando em silêncio todas as suas palavras
e feitos com o objetivo de partilhar suas fraquezas
com um público potencialmente desprovido de qualquer
simpatia por eles”.
Ao final da expedição, John confirmou
que o desconforto era recíproco: ele ouviu a
entrevista de um ex-companheiro à rede de televisão
americana ABC, dizendo que a presença de um repórter
aumentou o estresse do grupo, pois qualquer erro
seria descrito para milhões de pessoas, empurrando
os montanhista para ir mais longe do que deveriam ou
poderiam. Essa fonte, Beck Weathers, afirmou ainda
que a presença da imprensa colocou ainda mais
pressão sobre Rob Hall. No início da escalada, Hall
contou a John que havia cobrado da revista Outside
cerca de um sexto do valor normal da viagem; o
restante seria pago com anúncios na revista.
Mas é exatamente no fato de se expor
que está o mérito de John. Ele confessa que, ao
chegar ao topo, estava tão exausto e debilitado que
nem conseguia se dar conta de que realizava um sonho
antigo. Assume que estava preocupado demais com seu
cilindro de oxigênio para perceber que Andy Harris
não estava nada bem, ao encontrá-lo na descida.
Afirma que alguns dos guias foram extremamente
irresponsáveis por não ficarem constantemente com os
clientes, ou por não utilizarem oxigênio
complementar na escalada. Mas John se priva de
conclusões mais duras sobre a tragédia. Para ele, a
aventura oferece desculpas suficientes para os
acontecimentos de maio de 1996: “Escalar o Everest é
um ato intrinsecamente irracional – um triunfo do
desejo sobre a sensatez”.
Todo esse circo montado pela mídia e
as contradições dos fatos deixaram um grande
escalador de cabelos brancos, Anatoli Boukreev que
acompanhou tudo de perto desmente alguns fatos
narrados no livro de John. Ele foi um dos
responsáveis pelo resgate de algumas das vitimas e
também foi um dos organizadores da expedição. Em seu
livro Anatoli fala da incapacidade dos membros da
expedição para estar acima dos 8000MT. No livro "A
escalada" o montanhista russo Anatoli Boukreev,
defende-se das acusações de não ter ajudado como
deveria clientes que pagaram U$ 65 mil para subir ao
teto do mundo o Everest, na tragédia de 1996. É um
contraponto ao livro No Ar Rarefeito. Outra versão,
que se não diminui a tragédia, exibe uma dos mais
ousados resgates na montanha. A escalada de Anatoli
e considerado por muitos a verdadeira história da
tragédia no Everest. (Anatoli Boukreev e G.
Weston de Walt, Editora 34, 2000).
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Passando a fase Everest, John
Krakauer logo seguiria sua vida como
escritor Outdoor mais lido em todo mundo,
nos anos seguintes ele deu novos frutos e
continuou sua maratona de bons livros e
artigos. Em 1999, lançou a coletânea de
artigos que tenta desvendar as razões que
levam homens e mulheres a se lançarem em
busca da aventura e do desconhecido, sem
medo da morte “Sobre Homens e Montanhas”
(Companhia das Letras). |
Em 2003 John escreve sobre a Igreja
Mórmon no livro “Pela Bandeira Do Paraíso”
(Companhia das Letras). Neste trabalho Krakauer
relatou minuciosamente um episódio policial que
gerou muita polemica nos EUA, em 1984. Membros de
uma seita fundamentalista que se separou da Igreja
Mórmon ou “Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias”,
os irmãos Dan e Ron Laffety assassinaram a facadas
sua cunhada e a filha de 15 meses desta, dizendo
terem recebido ordens diretas de Deus. Mais do que
um relato sensacionalista o livro é um alerta aos
perigos do fanatismo religioso.
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Em 1998 dois anos depois do
acidente do Everest, John escreveu a
historia de Christopher McCandles ou
Alexander Supertramp. Na Natureza Selvagem (Into
the wild - Companhia das Letras). Krakauer
pesquisou obsessivamente a vida e a morte
prematura do jovem Christopher McCandles,
que abandona tudo e parte em uma aventura
sem volta. Com o pseudônimo de "Alexander
Supertramp", começa sua viagem no Oeste dos
E.U.A. e é encontrado morto no Alaska. |
O artigo para a revista Outside
depois se transformou em livro. Além da pesquisa,
Krakauer refez todo o trajeto da aventura do jovem
pelo país e entrevistou todas as pessoas envolvidas
na história. Krakauer analisou todos os detalhes que
levaram este jovem de classe média americana a
embarcar nesta aventura solitária.
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O Livro foi vendido para
vários países entre eles Itália, França,
Holanda, Dinamarca e Brasil. O livro
permaneceu na lista dos mais vendidos, do
New York times por dois anos. Recentemente
“Into the Wild”, foi adaptado para o cinema
pelo Diretor Sean Pean e lançado em 2007,
tento Emile Hirsch interpretando Christopher
McCandles. Um ótimo filme que não deixa nada
a desejar do livro. O filme foi vencedor de
vários prêmios de cinema, Um Globo de Ouro e
duas indicações ao Oscar. Ator coadjuvante
para, Hal Hoobook e Melhor Montagem.
Indicado também a dois Festivais de Cinema
por melhor canção e várias outras listas
americanas. |
John Krakauer nunca foi um grande
escalador, e não pode ser considerado um Masters of
Stone. Ele está longe de ser louco como
Dean Potter e
ser uma lenda do montanhismo como
Reinhold Messner.
John é mais um caso raro de amor pelo esporte,
perseverança e jornalismo investigativo feito com
seriedade. Seus relatos motivam novas e antigas
gerações a se lançarem no desconhecido da natureza
selvagem.
Meu primeiro livro de montanha não
foi nenhum dos escritos por ele, mas sim pelo
lendário Lionel Terray (Que para muitos no Rio de
Janeiro é só nome de via), Os
Conquistadores do
Inútil Volume 1º e 2 º. Não tínhamos
muitos livros relacionados ao assunto, e os textos
de Lionel Terray eram ótimos, mas estavam longe do
nosso tempo. Quando li pela primeira vez Sobre
Homens e Montanhas, pude ver melhor como o mundo lá
fora olhava para o montanhismo.
Ele pode não ter sido meu primeiro contato com a
literatura direcionada ao montanhismo, mas posso
afirmar que influenciou bastante quando iniciei
minhas caminhadas pelas montanhas. Masters of Stone
ou não, taí um sujeito que vou aplaudir de pé.
Força sempre e boas escaladas.
Atila Barros.