 |
Escolhendo seu parceiro de
Trip!
Atila Barros |
Depois de passar um tempinho fora curtindo as águas
quentes e azuis do Caribe e as montanhas da
Venezuela, estava na hora de falar de algo muito
importante para caminhantes, aventureiros e
montanhistas: a escolha de seu parceiro de Trip.
Nas
horas que se seguiram entre o vôo de Caracas para
São Paulo, pensei muito no quanto tinha viajando com
pessoas maravilhosas e o quanto já me desentendi com
grandes amigos por assuntos que hoje me fazem rir e
pensar que não valeu a pena.
Difícil imaginar passar três ou quatros dias
trancado dentro de uma barraca sem poder sair nem um
pouquinho à noite por conta do mal tempo. Como
passar o tempo ao lado de um cara que ronca a noite
toda, já está dias sem banho e não fala a mesma
língua que você (Você curte Iron Maiden e ele toca
seu grupo de Axé preferido a toda altura em seu
Iphone)? Como sobreviver a isso sem
perder o amigo e a cabeça?
Situações que podem ser evitadas com um pouco de
paciência e jogo de cintura ainda são fáceis de
resolver, mas quando nem mesmo toda paciência de
“Buda” consegue acalmar um companheiro descontrolado
querendo ir embora da montanha depois de uma noite
difícil de aclimatação?
Experiências do tipo: Dinheiro tá curto, vamos comer
no Hot-Dog (Pancho) mais sujo de Córdoba para
economizar cada centavo de dólar, e seu amigo quer
se entupir de carne bovina de primeira em uma
churrascaria próxima a seu hotel. Como sair dessa
sem deixar o cara sozinho? Deixando-o ir sozinho é
claro. Só que numa dessa você pode desencadear a
discórdia e detonar toda viagem.
Situações que colocam o espírito de aventura em jogo
também podem colocar amigos em campos diferentes do
jogo. Você quer ficar longe das compras e curtir o
que há de mais rústico na cidade; seu amigo está com
um gordo limite no cartão de crédito e quer comprar
toda loja de material esportivo ou aquela camisa de
grife que você pouco importa de estar usando. Não
tem coisa pior do que esperar do lado de fora de uma
loja enquanto existem mil coisas para se fazer. É
preciso muita paciência para não se indispor
(Passamos por algo parecido agora em Aruba, vontade
não faltou de deixar todo mundo a pé).
Melhores amigos podem se tornar piores inimigos por
conta de um relógio que toca fora do horário, roupa
suja espalhada em seu material de cozinha, ou até
mesmo se o seu grande amigo chega depois de uma
balada meio alto de Tequila às cinco da manha e
entra no quarto do hotel cantando “I love to hate
you” do Eraser (Estranho não?), dá vontade de matar
o cara, não só porque a musica é horrível, mas
porque quem vai levantar cedo para um dia difícil
não está nem um pouco receptivo aos seus suspeitos
dons musicais.
Situações como essa se multiplicam entre amigos que
montam seus grupos e partem por esse mundo afora.
Porém, quando a coisa fica feia, ou melhor dizendo,
quando a paciência começa a chegar ao limite, a
vontade que da é de pegar a mochila e voltar para
casa no primeiro pau-de-arara.
Depois de duas semanas de viagem, se o grupo não
estiver bem entrosado, tudo pode ser motivo de uma
grande briga. Um exemplo claro disso foi quando
certa vez na fronteira do Peru com o Chile em 2006
fui parar na imigração. Uma grande amiga perdeu a
paciência com um agente da imigração peruana porque
desconfiou de seus documentos e disse que os mesmos
estavam velhos. Todos que saem muito do país e se
aventuram pelas fronteiras da América do Sul sabem
que estamos sujeitos a esse tipo de atitude. Nada
que um pouco de conversa não resolva. Com a
paciência da agente de imigração no limite, o que
restou foi ser escoltado por policias até uma área
restrita. Depois de uma longa conversa, e com muita
paciência, consegui que fôssemos liberados e
seguimos viagem. Tudo isso poderia ser evitado se
antes de qualquer coisa tivéssemos tido uma boa
conversa entre o grupo mostrando a cada um como
funcionam as leis nas fronteiras.
Como
evitar esses contratempos e escolher nossos
parceiros de Trip?
Algumas dicas básicas podem salvar suas férias ou
seu projeto de escalada.
-
Quando for montar sua equipe, Trip adventure ou sua
excursão para “Praia de Ramos”, pense bem no que
você está se metendo, tente se avaliar. Veja se é
capaz de conviver em grupo com opiniões adversas e
às vezes perturbadoras.
-
Pessoas experientes têm menos chances de te dar dor
de cabeça. Quanto mais experiência no que você
propõe à sua Trip, melhor o resultado final. Procure
equilibrar o grupo.
-
Nem sempre seu melhor amigo de escola é seu melhor
parceiro de escalada ou viagem. Liberdade demais
entre pessoas de um mesmo grupo podem comprometer as
decisões. Fica difícil argumentar com quem já te
derrotou em um campeonato de River Raid no velho
Atari ou trocava figurinhas do campeonato Brasileiro
durante a hora do recreio na escola.
-
Respeito é tudo quando uma decisão deve ser tomada.
Lembre sempre que liderança não é sinônimo de
autoritarismo.
-
Antes de escolher seu parceiro de viagem, conversem
bastante, tracem metas e já saiam de casa com pelo
menos mais da metade do roteiro definido. Isso
diminui muito o número de imprevistos durante a
viagem.
-
Grandes poderes exigem grandes responsabilidades
(Essa é do Peter Parker!). Se você já é um Máster of
Stone e pretende levar seu melhor amigo de trabalho,
namorada ou irmão mais novo para montanha, lembre-se
que eles são de sua responsabilidade e que agora
você é como um pai para eles, isso até na hora de
pagar as contas e conferir a bagagem de cada um (Que
roubada!), a não ser que sua namorada seja uma Steph
Davis, a esposa do
Dean
Potter (Exagero, hoje temos ótimas escaladoras e
grandes namoradas que mandam super bem no esporte).
O
mundo é cheio de diferenças. Culturas e tradições
somam-se ao caráter de cada um de nós. Não é
possível ser perfeito em tudo, e não existem duas
pessoas completamente iguais no mundo. É preciso
saber conviver com essas diferenças e tentar fazer
prevalecer o bom senso e a tolerância quando o tema
é coletividade.
Resumindo: some grandes amigos de montanha,
experiência em escalada e aptidões musicais que não
sejam um “tam-tam e um cavaquinho” e tenha um grande
grupo ou uma super e tranqüila trip.
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros
|