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20/02/2010
O circo do Aconcágua
Maximo Kausch |
Uma
montanha onde a roupa de cadáveres é extraviada a
7000 metros de altitude. Uma montanha onde os
carregadores ganham mais que os guias. Uma montanha
onde qualquer um que seja gringo pode guiar. Uma
montanha onde um litro de água chega a custar 30
dólares. Uma montanha onde desequilibrados mentais
morrem no cume... Uma montanha chamada Aconcagua.
Depois de ter que desistir da sul do Aconcágua
porque alguém decidiu caminhar 4 horas e roubar as
minhas botas de dentro da minha barraca, comecei a
refletir em outros aspectos do Parque Provincial do
Aconcágua.
Ao ter aumentado o preço para estrangeiros para 1800
pesos argentinos (U$ 470), qualquer um iria achar
que a escória iria ficar afastada, mas não, acabou
piorando. Virou uma coisa comum em escutar histórias
de roubos no Aconcágua. Estas porém não são com
armas como acontece no PNT no Rio, são apenas
furtos, mas que acabam com a expedição de qualquer
um.
Como morrer no Aconcágua
O primeiro furto foi num cadáver que esteve no cume
por alguns dias. Algum 'montanhista' chegou ao cume
um dia após a pessoa ter morrido e se deparou com um
cadáver vestindo um macacão de plumas de ganso. Ao
constatar que o falecido não iria mais precisar da
peça de roupa, o 'montanhista' provavelmente deve
ter pensado: _'Perdeu !'
Mais tarde fiquei sabendo que o falecido era um
americano/tailandês que chegou bem cedo ao parque.
Ao ver uma foto do rosto dele, lembrei que conheci a
figura num ônibus no dia 13 de novembro de 2009
enquanto eu estava a caminho do Cerro Tolosa. Lembro
que na ocasião encontrei no ônibus 3 montanhistas
argentinos com o mesmo destino que eu. Começamos a
conversar sobre as rotas e condições da montanha
quando um montanhista desconhecido com sotaque
americano pulou na conversa dizendo:
_ 'Esse é o Tolosa? Eu acabei de escalar ele'
Achei estranho pois aquela era a minha segunda vez
no Tolosa, pois na primeira vez tive que descer
devido ao mau tempo. Ao perguntar a data que ele
esteve ali, constatei esta batia com a minha. Eu
comentei que eu estava lá nesta data e que não tinha
visto ele. Comecei a fazer uma série de perguntas
sobre os detalhes da escalada e nada batia.
Constatei que o suposto montanhista estava mentindo.
Acabei mandando ele a vários lugares desagradáveis e
mandei ele sentar na frente do ônibus para contar a
história para outra pessoa.
Depois de toda essa sutileza, ele atendeu ao meu
pedido e só se moveu na hora de descer do ônibus.
Ele desceu em Punta Vacas dizendo algo sobre o
glaciar polacos. Ninguém deu ouvidos. 2 meses depois
fiquei sabendo que ele morreu no cume.
Os guarda-parques me contaram as anedotas sobre o
tal americano/tailandês louco que perambulou pelo
parque. Segundo o que eles contaram, o montanhista
conseguiu se perder um Playa Ancha. Para os que não
sabem, Playa Ancha é um plano e longo vale a caminho
do acampamento base Plaza de Mulas. Não há outro
lugar para seguir que não seja o vale principal em
direção ao acampamento. Estima-se que mais de 5000
pessoas passam ali todo o ano, deixando uma visível
trilha. O montanhista no entanto conseguiu a proeza
de se perder ali 3 vezes e teve que voltar a
Confluencia, que é o acampamento intermediário antes
do base.
Quando os guarda-parques de Confluencia ficaram
sabendo dessa e outras histórias, foram procurar ele
e tentaram expulsá-lo do parque. Milagrosamente ele
escapou e acabou chegando a Plaza de Mulas.
Novamente ele escapou das autoridades e venceu a
barreira dos 5500 metros, onde começa a ficar mais
complicado descer alguém. Segundo testemunhas ele
permaneceu vários dias nos acampamentos de altitude
e tentou o cume no dia 5 de dezembro. É dito que 2
membros do grupo de resgate ainda tentaram pegar
ele, mas ele escapou e morreu no mesmo dia. Pelo
pouco que pude conhecer de Michael, vi que ele não
batia muito bem. O mesmo foi dito pelos que
conheceram ele no Parque provincial.
Roubo de botas que acabou com tentativa de quebra
de record
Após o incidente, outro que ficou muito conhecido,
foi o roubo das botas que Chad Kellogg no
acampamento Colera. Chad tentava quebrar o record da
rota normal e subiu muito leve desde Plaza de Mulas
para vestir suas botas plásticas que estavam mais
acima. Ao chegar, ele constatou que as botas e
outros equipamentos não estavam mais lá. Muitos
culparam os carregadores, chamados de porteadores na
Argentina.
Porteadores, um caso especial
Os carregadores no Aconcágua levam cargas de 20kg
dos acampamentos baixos até os altos, ou vice-versa.
Para este trabalho, em 2008, eles recebiam em média
140 dólares por carga. Ou seja, o carregador poderia
subir com uma carga e descer com outra, e se tiver
fôlego, pode ainda levar mais uma e embolsar 500
dólares num dia só. Isso é muito mais do que um guia
no Aconcágua normalmente ganha por dia: 100 a 200
dólares por dia.
Como se não bastasse ganhar tão bem, os carregadores
fizeram greve no mesmo ano e pediram 190 dólares por
carga. Fizeram até a APA (Asociasión de Porteres
Argentinos). O sindicato conseguiu subir o salários
para o desejado! Mal acostumados, em 2010, eles
começaram a exigir mais de 200 dólares por carga,
chegando a 230 dólares... Resultado? Uma das maiores
expedições comerciais no Aconcágua contratou toda um
grupo de carregadores bolivianos. Eles fazem o
trabalho mais rápido, por menos dinheiro e muitos
deles são guias UIAGM ou aspirantes. Vários
carregadores agora estão desempregados, mas ainda
exigem o mesmo salário alegando que levar estas
cargas é prejudicial aos joelhos e coluna.
Muitos deste porteadores ficam perambulando pela
montanha quando não estão trabalhando e ficam
'achando' botas, roupa de frio e muitas outras
coisas.
E vocês reclamam do PNI !
A administração do Parque Provincial do Aconcagua se
supera a cada ano. Lembrem-se que esta é área de
proteção na Argentina com maior arrecadamento anual
e deveria ser top em administração.
Ao esperar por uma tempestade de 5 dias em
Confluencia, fiquei surpreso quando, um dia de manhã
a água acabou. Todas as expedições comerciais tem
barracas cozinha com torneiras e há um cano com água
corrente para as pessoas que estão ali sem agência
nenhuma. A maioria das expedições comerciais têm uma
reserva de água em tambores para estes casos.
Na falta de água, as pessoas que estavam ali de
forma independente foram procurar água nas
expedições comerciais. Uma destas acabou cobrando 30
dólares por 1 litro de água de um turista !!!!!
Passei pela casa de guarda-parques para perguntar
sobre a previsão do tempo e o que estava acontecendo
com a água. Apesar deles terem se comprometido de
nos passar a previsão do tempo e de serem
responsáveis pela água do acampamento, não faziam a
mínima idéia sobre nenhuma dessas duas coisas.
Decidi pegar as ferramentas e arrumar o cano eu
mesmo. O cano segue por 2km até um ponto onde a água
é captada. Encontrei 16 furos no cano no caminho e
tenho certeza de que isso não aconteceu em uma só
noite. No sexto buraco que eu estava consertando,
apareceu um guarda-parque para me ajudar. Ao
conversar com ele, fiquei sabendo que ele era
voluntário ali e o parque não pagava nem a passagem
dele para chegar ali. Ele não tinha idéia sobre os
problemas dos montanhistas e outras coisas do
gênero.
Com a água funcionando, voltei ao acampamento e como
bom argentino, gastei o resto da noite tomando mate
e criticando o parque.
Jogando meses de treinamento fora
Escalar a sul do Aconcágua não é uma coisa que você
decide e vai amanhã. É preciso um certo treinamento
e preparação para esta parede de 3km de altura.
Foram 3 semanas de aclimatação, escalada de outras
montanhas técnicas com peso, conseguir apoio
logístico para a parede, etc. Demoramos meses para
chegar até o ponto de poder olhar a parede desde a
base e dizer vamos.
Na primeira tentativa fomos para a parte sul do
esporão francês, a variante eslovena. Devido às
avançadas condições de derretimento, tivemos que
descer e tentar a normal da rota francesa. Ao
conseguir subir no esporão, e com tempo péssimo,
perguntamos por rádio a previsão do tempo que nos
foi prometida, porém não aparecia a dias. O parque
respondeu dizendo que havia uma 'nevisca' prevista
para aquele dia. A nevisca porém durou 6 dias e nos
obrigou a descer da parede deixando o equipamento e
cordas fixas na parede.
Na espera, fiquei tão entediado que acabei arrumando
o cano de água, como contei mais acima. Na volta à
Plaza Francia, onde estava somente a minha barraca
com um pouco de equipamento e comida, descobri que
minhas botas não estavam mais lá. Mesmo com a forte
tempestade de 6 dias, o atrevido e burro ladrão
abriu a minha barraca e roubou somente a parte
externa das minhas botas plásticas. A parte interna
estava separada da externa, o que demonstra que o
ladrão não tinha muito conhecimento do que estava
roubando.
Quer guiar no Aconcágua?
Teoricamente, para guiar legalmente no Aconcágua, o
Parque Provincial exige que o guia seja formado por
uma das 3 instituições:
- EPGAMT de Mendoza, que dura 3 anos e forma guias
de trekking, de montanha e de alta montanha.
- AAGM em Bariloche que forma guias de trekking e
guias UIAGM
- Escolas UIAGM de vários países do mundo
Qualquer um desses títulos, incluindo os de
trekking, podem ser usados para conduzir clientes
legalmente no Aconcágua até o cume. Não é necessário
dizer que para conseguir um desses títulos de guia,
especialmente o UIAGM, o guia deve ser muito
habilidoso e ter gastado muito tempo e dinheiro
nisso.
Após ter estudado por 3 ou 4 anos, o guia pode pegar
a sua credencial e se apresentar à Secretaria de
Turismo de Mendoza e conseguir outra credencial que
vale para toda uma temporada. Ele vai gastar mais ou
menos 700 pesos nisso.
Após todo esse processo, ele pode entrar livremente
no Parque Provincial e guiar até 4 pessoas. Se o seu
grupo tiver mais que 4 pessoas, ele deve contratar
um assistente (que passou pelo mesmo processo
descrito acima) para cada 4 clientes. Só assim, uma
expedição guiada estará na legalidade dentro da área
de proteção.
O grande problema é que a grande maioria dos guias
que não são argentinos entram no parque como
turistas, pagando a sua permissão de 1800 pesos.
Todo mundo sabe quem é e quem não é guia dentro do
Aconcágua. Muitos guiam ali há anos, e levam até 5
grupos por ano para o cume. Ninguém jamais vai
perguntar algo se você é estrangeiro... Eu mesmo
conheço pelo menos 9 guias estrangeiros que guiam
ali há anos e jamais tiveram problemas.
Para que um desses guias pare com as suas atividades
ilegais é necessário que alguém denuncie ele/ela.
Porém fica difícil ser o dedo-duro da turma e
ninguém quer assumir o papel. O Parque Provincial
como instituição deveria fazer esse tipo de denúncia
e expulsar os supostos guias do parque, porém, por
algum motivo, ninguém o faz. Será que é porquê cada
um deles paga 1800 pesos e não 600 como pagam os
argentinos?
Até agora, o Brasil não possui nenhum guia que
esteja legalmente habilitado para guiar no
Aconcágua. Existe somente um brasileiro que esteja
próximo de conseguir a carteirinha, mas ainda falta
1 ano. Mas isso não importa. Como brasileiro,
ninguém vai te falar nada... Quer guiar no
Aconcágua?
E vocês reclamam do PNI...
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