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02/12/2008
Coca, a
folha sagrada Inca.
Atila Barros |
Tentar desmistificar um
mal entendido que acompanha uma planta tão saudável
parece ser tarefa difícil para os governos andinos,
mal entendido este que foi imposto por anos de
repressão e preconceito. Para entender melhor o
assunto, tentei resumir em poucas linhas o que vem a
ser esta famosa plantinha companheira de
montanhistas e caminhantes que se aventuram pelas
altas montanhas da America do Sul.
A coca, do quíchua kuka,
é uma planta narcótica da família das Erythroxylesd,
nativa da Bolívia e do Peru (Erythoxylon coca). Ao
arbusto conhecido por este nome, os peruanos chamam
"ipatú", podendo atingir de 1 a 3 metros de altura.
Uma casca esbranquiçada cobre toda a sua haste. As
flores são pequenas e amarelas e o fruto vermelho,
oblongo e carnoso. Existe ainda a espécie
Erytroxylum novogranatensis que contém um menor teor
de cocaína. Essa variedade da planta é hoje refinada
e comercializada, legalmente diluída em
refrigerantes, principalmente a Coca-Cola.
Em estado selvagem abunda nos Andes até dois mil
metros de altura. Os incas exaltavam excessivamente
este arbusto e utilizavam-lhe a folha como moeda. Na
antiga Colômbia, os sacerdotes do Sol mastigavam e
queimavam folhas de coca em honra a divindades.
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Os peruanos e bolivianos mascam as folhas, depois do
que, dizem, podem resistir não só a maiores fadigas
e ao sono, como também aos jejuns prolongados.
Entre os habitantes do vale Calchaqui, na Argentina,
achava-se muito arraigado o costume de "coquear",
isto é, mascar folhas de coca.
Os peões não
empreendiam trabalho algum sem fazer previamente seu acullico, que é o mesmo que por na boca uma certa
quantidade de folhas de coca, as quais misturam
llicta (massa feita de batatas fervidas). |
A coca já cumpriu e ainda cumpre, um grande papel em
todas as práticas religiosas e supersticiosas dos
povos andinos. Por exemplo, quando estão para empreender
uma viagem ou um negócio, recorrem à coca do
seguinte modo: molham com saliva a folha inteira e a
pegam à ponta do nariz; logo dão um sopro forte e
olham para o lado que caiu, se para a direita, é
sorte, se para esquerda é sinal de desgraça. Raras
vezes empreendem algo, se a coca lhe anunciou má
sorte.
Antes de empreender qualquer negócio, oferecem coca
a Pachamama, a Mãe dos cerros (Nevados). Quando vão
à caça, o caçador faz um buraco no chão, à beira do
mato, onde todos depositam uma oferenda de coca,
invocando a Pachamama para que lhes seja propícia a
caça. Em viagens pelas montanhas notam-se nas
vertentes certos montinhos de pedra em que se
encontram folhas de coca, que se sabe, foram ali
atiradas pelos viajantes. A estes certos montinhos
chamam "Apachetas" e raro é o viajante que lá passa
e não tire da boca a folha que mascava, para
depositá-la na Apacheta.
Esta cerimônia que tem por fim propiciar-se uma
feliz viagem, encontrava-se também entre o povo
guarani do Paraguai. Ali, se tinham cristianizados,
formavam-se sempre ao pé de uma cruz montinhos que
orlavam os caminhos e debaixo dos quais havia um
enterrado.
Para os indígenas aymaras e quechuas, a folha da
coca é sagrada, como a hóstia dos cristãos. É
utilizada em cerimônias sociais e rituais.
Uma lenda diz que o fundador do império
inca, Manco Cápac, filho do sol, desceu um dia do
céu e se dirigiu ao lago do Titicaca para ensinar
aos homens a cultivar as terras, e oferecendo-lhes a
planta divina, cujas as folhas, mascadas, faziam
recuperar as forças perdidas pela altitude e
trabalho duro do dia-a-dia.
Durante o Tahuantinsuyo (as quatro regiões do
império inca: altiplano, selva, costa e chaco),
seguiu-se com está prática, mas nessa época a folha
de Coca estava restrita ao uso dos nobres, chamemos
de Incas, seus familiares e curacas, quem acreditava
que a Coca era um presente dos deuses. Com a
expansão do império incaico, a utilização da da
folha de Coca propagou-se as terras conquistadas
tendo papel inclusive de moeda entre os povos.
Varias lendas foram adaptadas para a época da conquista e
passou a atribuir o consumo ilegal da planta ao
conquistador europeu. Sempre a divindade sol
presenteando o ser humano com a folha sagrada que
concede dons divinos. Entre todas as lendas que
pesquisei, a historia de Khana Chuyma é a mais
ilustrativa para referenciar o período da conquista
do povo inca.
Historia conta que o sacerdote iluminado chamado
Khana Chuyma, que vivia em uma ilha no lago
Titicaca, era o guardião do tesouro do Deus Sol. Ao
ver que os conquistadores espanhóis iam dominá-lo, o
sacerdote jogou o tesouro no lago para evitar que
fosse roubado. Capturado pelos espanhóis, Khana
Chuyma resistiu às cruéis torturas sem dizer uma
única palavra sobre a localização do tesouro, e foi
finalmente libertado para então morrer.
Naquela mesma noite, em grande agonia, o sacerdote
foi visitado pelo Deus Sol que lhe disse: "Meu
filho, você merece ser recompensado pelo seu enorme
sacrifício. Faça qualquer pedido e eu irei
realizá-lo."
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"Oh meu querido Deus", o sacerdote respondeu, "o que
poderia pedir em tempos de dor e derrota como esse,
se não a vitória de meu povo e a expulsão dos
invasores?".
O Deus Sol respondeu: "O que você me pede é
impossível. Não tenho poderes contra o
inimigo. O deus deles me venceu e agora devo
fugir e me esconder entre os mistérios do
tempo. Porém, antes de deixá-lo, gostaria de
conceder-lhe algo sobre o qual tenho
poderes." |
Khana Chuyma respondeu pedindo por algo que os
ajudasse a suportar a escravidão e a vida dura que
os esperava - algo que não era ouro. O Deus Sol lhe
mostrou a planta de coca e disse: "Diga a seu povo
para cultivar essa planta com carinho e colher suas
folhas. Após secas, as folhas devem ser mascadas
para que seu suco alivie seu sofrimento. Quando se
sentirem exaustos de seu destino essa planta lhes
dará nova vitalidade. Em suas jornadas através de
terras altas, a coca irá aliviar sua fome e frio,
tornando a viagem mais tolerável. Nas minas onde
serão forçados a trabalhar, o terror e a escuridão
dos túneis será insuportável sem a ajuda desta
planta".
"Quando quiserem olhar para o futuro, uma mão cheia
de folhas jogadas ao vento revelarão os mistérios do
destino, mas enquanto essa planta significará força,
saúde e vida para seu povo, ela será maldição para
os estrangeiros. Quando eles tentarem explorar suas
virtudes, a coca irá destruí-los. O que para seu
povo servirá de "alimento", para os invasores criará
conflitos".
Mesmo tendo um grade poder ilustrativo, o texto esta
totalmente deturpado e não condiz com os estudos
modernos. A suposta maldição empregada na lenda não
vai acontecer durante a conquista do império Inca.
Ou seja, as datas e registros para a transformação
da Coca em cocaína são discordantes. Podemos tomar
como data inicial da conquista a empreitada de
Francisco Pizarro que decidiu executar o
imperador Inca Atahualpa
no dia 29 de agosto de 1533, sendo assim 300 anos de
diferença entre a queda do império Inca e descoberta
da cocaína.
Alcalóide cocaína só foi isolado das folhas de coca
por Niemann em 1860, que lhe deu o nome. No entanto
há boas razões para supor que foi antes Friedrich
Gaedcke que a isolou pela primeira vez em 1856.
O seu uso espalhou-se gradualmente. Após visitas à
America do Sul de cientistas italianos que levaram
amostras da planta para o seu país, o químico Angelo
Mariani desenvolveu, em 1863 o vinho Mariani, uma
infusão alcoólica de folhas de coca (mais poderosa
devido ao poder extrativo do etanol que as infusões
de água ou chás usadas antes). O vinho Mariani era
muito apreciado pelo Papa Leão XIII, que
inclusivamente premiou Mariani com uma medalha
honorífica.
A Coca Cola seria inventada em parte como tentativa
de competição dos comerciantes americanos com o
vinho Mariani importado da Itália. A Coca-Cola
continuaria desde a sua invenção até 1929 a incluír
cocaína nos seus ingredientes, e os seus efeitos
foram sem dúvida determinantes do poder atractivo
inicial da bebida.
A cocaína tornou-se popular entre as classes altas
no fim do século XIX. Entre consumidores famosos do
vinho Mariani contavam-se Ulysses Grant, o Papa Leão
XIII, que até apareceu na publicidade do produto e
Frédéric Bartholdi (francês, criador da Estátua da
liberdade), que comentou que se o vinho tivesse sido
inventado mais cedo teria feito a estátua mais alta
(um sintoma de excesso de autoconfiança típico).
A cocaína foi nessa altura popularizada como
tratamento para a toxicodepêndencia de morfina. Em
Viena, Sigmund Freud, o médico criador da
psicanálise experimentou-a em pacientes, fascinado
pelos seus efeitos psicotrópicos. Publicou
inclusivamente um livro Über Coca sobre as suas
experiências. Contudo acabou por se desiludir com a
dependência a que foram reduzidos vários dos seus
amigos. Foi ele que a forneceu ao oftalmologista
Carl Köller, que em 1884 a usou pela primeira vez
enquanto anestésico local, aplicando gotas com
cocaína nos olhos de pacientes antes de serem
operados.
A popularidade da cocaína ganha terreno: Em 1885 a
companhia americana Park Davis vendia livremente
cocaína em cigarros, pó ou liquido injectável sob o
lema de "substituir a comida; tornar os covardes
corajosos, os silenciosos eloqüentes e os sofredores
insensiveis à dor". O fictional Sherlock Holmes
(personagem de Arthur Conan Doyle) chega mesmo a
injectar "cocaine" nas veias numa das histórias! Em
1909 Ernest Shackleton leva cocaína para a sua
viagem à Antartica, assim como o Capitão Robert
Scott.
A folha de coca contém 0,5% de um produto
anestesiante chamado cocaína. A partir do século
XIX, os cientistas conseguiram retirar a cocaína da
coca. Em um primeiro momento, ela foi utilizada por
suas propriedades anestésicas. Mas, a partir de
1914, a cocaína foi definida como "droga perigosa" e
proibida. Nos anos 60, após a guerra do Vietnam
ressurgiu como uma droga popular. A demanda cresceu
e a "máfia da droga" entrou em cena.
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A folha de coca,
estigmatizada por ser a matéria-prima da
cocaína, se transformou em um ingrediente
saudável na produção de pães, sorvetes,
bombons e balas, além de sabonetes e pasta
de dentes.
Vários estabelecimentos da cidade peruana de
Cuzco passaram a usá-la com o objetivo de
demonstrar que a planta sagrada dos povos
andinos, além de combater o mal-estar
causado por grandes altitudes e de ser
utilizada nos antigos rituais
pré-colombianos, é comestível e tem usos
cosméticos e medicinais que contribuem para
uma vida saudável. |
Ciente de que a coca é
"um assunto muito sensível", o especialista e
proprietário da "Coca Shop", Christo Deneumostier,
disse que "o problema não é a coca, mas uso que se
faz dela", em alusão ao excedente do cultivo que vai
parar nas mãos do narcotráfico.
Deneumostier assegura que uma das soluções para o
problema seria industrializar e comercializar a
planta, aproveitando suas propriedades para a
fabricação de produtos de qualidade, saudáveis e
gostosos.
A folha de coca conta com 14 alcalóides, mas apenas
um deles - o que serve para a fabricação da cocaína
- foi popularizado no exterior via mercado negro.
Os 13 restantes possuem proteínas, vitaminas,
carboidratos, gorduras, fibras, calorias, cálcio,
fósforo e ferro, entre outros componentes básicos
para uma dieta equilibrada, segundo vários estudos
científicos, entre os quais um elaborado pela
Universidade de Harvard em 1975.
O pesquisador Fernando Cabises descobriu, segundo a
revista Opción Ecológica, que a coca forma células
musculares, previne úlcera e gastrite, é analgésica,
afina o sangue, evita o mal estar causado pela
altitude, melhora o funcionamento do fígado e da
vesícula, é diurética, acelera a digestão, regula a
melanina da pele e evita cáries.
A "Coca Shop" nasceu em 2004 em Cuzco por uma
iniciativa de Deneumostier e da italiana Emma Cucchi,
fundadora da Associação Kuychiwasi (Casa do Arco
Iris).
Em seu primeiro ano de vida, a "Coca Shop" aumentou
sua receita em 75% e, segundo seu proprietário, a
chave para o sucesso está no fato de que seus
empregados, entre eles alguns deficientes físicos,
recebem formação a respeito do cultivo, da produção
de derivados e da comercialização, e na opção de
reinvestir todo o lucro.
O resultado é uma vitrine de comestíveis tendo como
base a folha de coca, como chocolate, sorvetes e
grãos.
Mas esse não é o único exemplo de fabricação de
produtos a base de folha de coca em Cuzco. A "Casa
Ecológica", oferece também pães, bolos, sabonetes e
pasta de dentes, elaborados pela pesquisadora Maria
Escobedo.
A proprietária, Rina Gutiérrez, disse que os
sabonetes têm propriedades esfoliantes, e que a
pasta de dentes previne cáries.
Os turistas são os principais clientes das lojas
localizadas no centro histórico de Cuzco, já que os
produtos ajudam a preparar o organismo para as
longas caminhadas e excursões pelo vale sagrado dos
incas e pelas montanhas andinas. O caráter "exótico"
dos produtos também ajuda. Nas ruas de Cuzco pode se
comprar um saquinho de folhas de coca por algumas
moedas. Em toda a cordilheira dos Andes, os povos
mascam a folha seja para melhorar a saúde ou por
mero costume.
Mas, segundo Gutiérrez, a comercialização da folha
de coca vai além da venda de produtos inovadores,
trata-se também "de preservar as antigas culturas
andinas e suas formas de vida".
No entanto, a tarefa dos ecologistas, cientistas e
analistas defensores da coca ainda não foi
concluída, já que a ONU mantém a planta em sua lista
de produtos nocivos.
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Quando estou no
teto dos mais de 3000MT sempre tenho comigo
folha para mascar e outra porção para fazer
chá. Nos moradores dos trópicos sofremos
muito com o mal da altitude e a folha de
coca é um santo remédio para as dores de
cabeça e enjôo causados pelas grandes
elevações dos Andes.
É preciso entender que folha de coca não
quer dizer droga, diferenciar o uso
medicinal da Erythoxylon coca do comercio
marginal se faz necessário. |
O preconceito quanto à
imagem da folha é grande para os leigos. Quem nunca
usou o chá ou mascou as folhas ainda insiste em
dizer que nunca faria isso porque seria como usar droga.
Infelizmente se embriagar em uma garrafa de whisky
de procedência duvidosa é mais glamoroso e menos
preconceituoso do que mascar as humildes folinhas
verdes dos Andes. A grande diferença é que um vai te
dar uma grande dor de cabeça e a outra pode acabar
com ela.
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros