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Cordilheira Real 18/08/2007
Fazendo a coisa certa!

Curso de escalada em Gelo, Bolívia 2007
Atila Barros

Malas prontas, um mês de preparativos para voltar à Bolívia, pouco tempo para treinar e dias agitados no trabalho, foi assim que o grupo de amigos que partiu para os nevados de La Paz encarou o curso de escalada em gelo e alta montanha este ano.

Realizar um curso de escalada em gelo não estava em meus planos, mais incentivado por Leandro Reis, comecei a mudar de idéia. Já tinha caminhado antes por montanhas com mais de 5000m mais o que me esperava era muito mais que um simples grampom nos pés.

Leandro Reis e Atila Barros - Abrigo São Jorge - S.Cruz - Bolivia - Foto Marcio Araujo

Mineiros e cariocas alinhados, tocamos para Santa Cruz, Bolívia, onde o grupo iria se encontrar para partir a La Paz. Alguns atrasos aéreos causados pelo caos que se encontram os aeroportos nos deram um dia e uma noite de desencontros. Marcio Araújo que partiu do Rio de Janeiro chegou primeiro e passou um dia perdido na cidade, mais tarde Leandro chega em Santa Cruz e consegue resgatar Marcio, eu, Eustáquio Junior e Gislene só conseguimos chegar um dia depois na madrugada (Depois de escalas forçadas em São Paulo e Campo Grande). Agora sim grupo reunido, dezoito horas de ônibus até Lá paz.

Com dois dias de atraso da data marcada para nossa chegada em La Paz, o tempo de aclimatação para ir a montanha foi comprometido, exigindo mais do grupo. No dia seguinte a nossa chegada aos 3660 metros de altitude da cidade já estávamos indo para a Cordilheira Real. Depois de uma noite de viagem, descansar em La Paz foi quase nada. O curso seria realizado no grupo Condoriri, com ascensão ao Pequeno Alpamayo com duração de seis dias.

Logo pela manha, Mochilas no carro e partimos para agencia que contratamos para fazer o curso (Azimut), ponteiros acertados, carro abastecido, logo a cidade vai ficando para traz.

Condoriri - Cordilheira Real

O (pequeno) Alpamayo boliviano fica localizado na Cordilheira Real, que é a cadeia de montanha oriental deste país, erguendo-se entre o altiplano e a baixada amazônica. É uma região formada por montanhas não vulcânicas, ou seja, são montanhas dobradas, falhadas e soerguidas, muitas das quais tem altitudes superiores à 6.000 metros, como o Illimani, Ancohuna, Illampu, Huayna Potosi, Chachacomani e Chearoko

Dentro da Cordilheira Real, o Pequeno Alpamayo fica localizado no grupo Condoriri, que são montanhas de baixa altitude (para os padrões bolivianos!) muito delas rochosas, porém circulada por geleiras, que faz que alguns cumes desta região sejam de grande dificuldade para a escalada.

Pequeno-Alpamayo

Escolhemos escalar no grupo Condoriri pela facilidade de acesso e pelo conforto do acampamento base, que fica ao lado do lago Chiar Khota, num lugar muito agradável com gramado e bem protegido do vento, embora numa altitude de 4600 metros. O acesso ao acampamento base se faz por Tuni, que é um vilarejo de índios Aymará ao lado de uma represa que abastece La Paz de água. São apenas 10 quilômetros que separa a vila do acampamento, uma distância curta para o montanhismo.

Uma vez no acampamento base, fizemos uma caminhada de reconhecimento da rota para o Pequeno Alpamayo, que não é inteiramente avistado desde a base, pois ele fica atrás do Nevado Tarija.

Atila e Leandro - Condoriri. Foto Marcio Araujo

Já no meu caso o curso terminaria mais cedo. Depois de três dias na montanha tive de sair às pressas do acampamento base. Ignorando os conselhos de outros escaladores que estiveram em La Paz este ano, a comida não me fez bem. Uma bactéria alojada no organismo me deu cinco dias de folga sem escalar. Durante três dias na montanha sofri com diarréia e vômitos, perdendo seis quilos nestes poucos dias. Não só eu mais Eustáquio também ficou mal, mais conseguiu se recuperara e consegui fazer o cume.

Quando a situação começou a piorar, Marcio e Nemesios um dos guias, saíram comigo do Condoriri. Marcio também estava cansado e abatido pelas noites mal dormidas e aproveitou para descansar em La Paz retornar dois dias depois e tentar atacar o cume. Em La Paz um pouco de repouso, soro caseiro e alimentação leve me deram a chance de voltar as montanhas. Em dois dias fui até Chacaltaya para dar uma olhada como se comportava meu organismo acima de 5000mt. Aproveitei para dar uma caminhada no gelo e colocar o psicológico no lugar.

Chacaltaya - 5.395 m

Chacaltaya é a estação de ski mais alta do mundo com 5.395 metros de altitude. Grande destino turístico nos arredores de La Paz. Chacaltaya.Chacaltaya é um pico da Cordilheira dos Andes localizado na Bolívia e que possui 5.421 m de altitude. Esta a cerca de 30 km da cidade de La Paz e muito próximo a Huayna Potosí. O acesso a estação é por uma estrada estreita e bem íngreme, sendo que para se chegar a base necessita-se vencer um caminho de 200m construído na década de 30.

Faz muito frio no inverno, época mais aconselhável para se esquiar, pois devido ao aquecimento global a quantidade de neve diminui a cada ano. É controlado pelo Club Andino Boliviano (Estação de Ski esta desativada.).

Retornando ao Hotel Torino encontrei o grupo voltando o Condoriri, as noticias não foram tão boas como esperava, só Eustáquio e Leandro fizeram cume, o resto do grupo estava muito debilitado e ficou a metros do cume, na subida da aresta maior. Sendo assim a possibilidade de fazer o Illimani (Illimani, Andes Bolivianos, a 6439m ) como tínhamos planejado ficaria para uma próxima vez. Com a moral em baixa, mais como o curso concluído, retornamos a agencia no dia seguinte para passar um feedBack sobre o curso. Depois de muita conversas, dicas e troca de informações, Juan Villarroel nosso guia e dono da agencia me oferece um retorno a montanha, mais não uma volta ao Condoriri, mais agora para concluir o curso no Huayna Potosi já que perdi boa parte do mesmo. Esse convite também se estendeu a todo grupo, já que sozinho não pensava em voltar. Esta subida também colocaria o grupo a prova depois do curso ministrado por Hugo, guia e instrutor da agencia. Agora com a moral em alta e recuperado, era só voltar para o Hotel e arrumar as coisa para voltar a montanha. As cinco da manha já estávamos de pé, mais só três de nos retornaria as montanhas, Eustáquio e Gislene estavam cansados e preferiram ficar em La Paz e ir ao Chacaltaya.

Huayna Potosí 6088 m

Huayna Potosí (6088 m) é um pico da Cordilheira dos Andes localizado na Bolívia, está situado a 25 km de La Paz, e une a linha da Cordillera Real ao maciço de Mamacora Taquesi e do Condoriri (ou Kondoriri) por uma cadeia de picos menores porém abruptos. É uma montanha bastante procurada por sua rota normal que é facilmente acessível pela carretera La Paz - Zongo que passa próxima à montanha.

À beira dessa mesma carretera (não asfaltada) há um primeiro refúgio, uma casa modesta mas muito acolhedora, em cujas imediações pode-se acampar. Esta casa refúgio pertence a San Calixto. Situada a poucos kilometros do refúgio de San Calixto, na borda da represa Milluni - Zongo, existe outro refugio privado que pertence a uma agência de turismo de aventura de La Paz.  Em três horas, descansando pode-se chegar ao acampamento alto de "Las Piedras", a 1 hora do acampamento "Argentino" (5.390 m.). É preferível pernoitar em "Las Piedras" (5.150 m.).

Leandro Reis - Cordada no Huayna Potosí

O Huayna Potosí, é atualmente o destino de muitos turistas ansiosos para alcançar uma vez na sua vida uma montanha com 6.000 m. Com razão os guias de alta montanha o consideram como seu "plano cotidiano" durante todo o ano. Em 2 dias, saindo de La Paz, se chega ao cume e se retorna para a capital. Por isto dezenas de agências não especializadas oferecem a rota a preços baixos.

O Huayna Potosí, absorve cerca de 38% das preferências dos montanhistas estrangeiros que visitam a Bolívia. Também é o nevado mais procurado de abril a outubro, nestes meses se vê invadido de turistas e montanhistas, em 1999, subiram 760 escaladores, e no ano 2000, 990 turistas e montanhistas. O Huayna Potosí oferece somente uma rota acessível para turistas, a rota normal.

As demais vias são: Face Oeste, 4 rutas de nivel D - 2 difíceis e D - 3 difíceis; Face Noroeste, 2 rotas de nível D superior; a Face Norte de nivel D superior, o Pico Mesili de nivel AD - 2; a travessia integral do Huayna Potosí pelas arestas do Pico Milluni ao Pico Norte, de nivel A D.

Atila Barros - Cordada durante uma nevasca - Huayna Potosí - Foto Marcio Araujo.

Sem dúvida a rota normal é fácil, porém, a face oeste e noroeste apresentam dificuldades técnicas importantes que só andinistas com muita experiência podem pensar em escalar. Arenas e pilares de 800 a 1000 m, convertem o Huayna Potosí na montanha símbolo de La Paz. Concluir o curso de escalada nessa montanha foi uma das melhores opções que tivemos nessa empreitada. Todas as atividades e técnicas adquiridas no curso no Condoriri foram colocadas a prova.

Escaladas em pilares verticais de gelo azul, caminhadas em logos glaciares, travessias de gretas e resgate foram repetidos exaustivamente. Técnica e preparo físico colocados a prova. Já estive no teto dos +5000m anteriormente em outras montanhas, caminhando e passando frio, mais o curso de escalada em Gelo e Alta Montanha é essencial para quem pretende se aventurar pelas montanhas mundo a fora como o mínimo de segurança. Transpor uma parede de gelo é pra lá de doido.

Atila Barros e Marcio Araujo - Fim de uma cordada.

Antes do curso tinha uma visão modesta do que seria escalar no gelo, depois do curso, deu para perceber que ainda falta muito para se tornar um bom esportista de alta montanha, experiência essa que só é adquirida com tentativas constantes a esses gigantes gelados.

Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros

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