![]() |
11/09/2009 |
A previsão do tempo não era nada animadora, muita chuva para o final de semana, mas como adiar outra vez a visita a um dos principais marcos da escalada no Rio de Janeiro, a famosa região conhecida com Três Picos de Salinas.
A formação
rochosa dos Três Picos de Salinas, localizada numa
região conhecida como Tres Picos, 13° Distrito de
Nova Friburgo, próximo a Salinas e São Lourenço,na
cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, fica dentro
do Parque Estadual dos Três Picos, com uma área
aproximada de 46.350 hectares, é o maior parque
estadual do Rio de Janeiro, abrangendo porções dos
municípios de Cachoeiras de Macacu (49,1% da área do
PETP), Teresópolis (19,9%), Nova Friburgo (19,7%),
Silva Jardim](7,1%), Guapimirim (4%). A formação
possui de 2.310 metros de altitude e é conhecida
como Montanhas Fantasmas, por não estarem inseridas
nas cartas topográficas regionais.
Ao redor da formação existem outras pedras e picos
de relevante interesse, como a Pedra do Gato, a
Pedra do Capacete, bem ao lado dos três picos e a
Pedra da Cabeça do Dragão. Na região se localiza
também o Vale dos Deuses, área excelente para
acampamentos e para apreciar e curtir a natureza.
As caminhadas nesta região são consideradas de nível
médio à difícil. Trilhas como a do Vale dos
Deuses-Bonsucesso, em Teresópolis, chamam a atenção
pela presença da mata intocada e de cachoeiras de
rara beleza. A própria trilha que leva ao Vale dos
Deuses e aos Três Picos, já é de tirar o fôlego, não
pela esforço, mas pela vista do Pico da Caledônia e
dos vales e montanhas da região serrana.
A localidade em torno do parque estadual vive da
agricultura e do agroturismo, geradores de renda e
riquesa para os moradores.
No local existe a sede do parque em uma casa antiga,
adaptada para tal uso, Lé é possível encontrar guias
cadastrados, material informativo sobre a região e
instalações úteis para visitantes. Foi neste cenario
privilegiado que encarei uma das melhores escaladas
em rocha que já fiz.
No feriado da independência, saímos para conhecer a famosa região, acompanhado do velho amigo Bruno Castelo, partimos de Ipanema às 16h10min de sábado após 4 horas de estrada e quase duas centenas de quilômetros rodados, alguns deles perdidos, chegamos à Nova Friburgo, logo estaríamos no Refugio das Águas por volta das 21 horas.
Descansamos da viagem e logo pela manhã partimos pela estrada de terra em busca de outro refugio, um pouco mais acima na estrada, o último local onde se pode chegar de carro de passeio. Após alguns perrengues na estradinha conseguimos chegar ao local com a ajuda de um casal de escaladores curitibanos que demos uma carona e que por lá ficaram. Esta mesma estrada nos reservaria também algumas doses de adrelanila, mas esta parte da historia vou deixar para o final do texto.
Paramos alguns instantes para fazer algumas fotos e partimos em direção a rota escolhida, esta seria a via CERJ, uma escalada tradicionalíssima na região conquistada em 1970 pelos escaladores: Cláudio Vieira de Castro, José Bezerra Garrido, José Luis Barbosa da Silva, José Roberto da Costa, Giuseppe Pellegrini, Reynaldo Pires Ferreira e Waldemar dos Santos. Esta rota marca a graduação 5° VI SUP (AI/VI SUP) E2. Não demorou muito para nos perdemos ao tentar chegar à base da via (Ai vai uma dica para quem pretende se aventurar pela região dos Três Picos; o local não é bem sinalizado, é necessário estar atento para se chegar onde pretende).
Para ser sincero, devido à hora avançada que começamos a escalar, somente às 09h50min, achávamos difícil chegar até o topo, à rota marca cerca de 400m de parede rochosa e seria guiada a vista pelo meu parceiro Bruno, e para evitarmos problemas na volta combinamos que desceríamos as 15h00min, independente de onde estivéssemos. Começava então uma grande saga que durariam 16 horas.
Com o passar das horas o tempo não era nada amimador, estava sempre fechado e não dava esperanças de que veríamos pelo menos o topo da montanha, porém como a escalada corria sem problemas não nos preocupamos com a possibilidade pegar chuva no meio da parede. Depois de vencida a chaminé, aceleramos para chegar ao platô do sorvete, na quinta parada da rota se pode dar uma boa esticada nos músculos e comer algo com um pouco mais de conforto devido o platô ser bem plano largo.
A forte chuva fazia a água descer por todos os lados, por sorte a ultima enfiada era de terceiro grau em sua maioria e a inclinação da pedra nos favorecia muito, mas no fundo sabíamos que, a coisa tava feia. Terminamos a ultima enfiada completamente encharcados, as sapatilhas cheias de água e o vento soprava cada vez mais forte, poucos minutos depois, enfim no todo. Um aperto de mão, um abraço no amigo e um grito (Sem frescura!) foi minha comemoração por estar no alto de uma montanha tão linda.Mas como todo escalador já esta cansado de saber, a escalada só acaba quando se volta ao chão, em menos de cinco minutos já estávamos preocupados com o retorno.
Bruno decidiu procurar uma via de 50m de extensão para que pudéssemos fazer um rapel mais curto devido à hora avançada e a quase impossibilidade de descer pela mesma via que subimos, mas nada de encontrar a tal via, a chuva havia dado uma trégua, mas com uma forte neblina ficou difícil enxergar mais de 60m à frente, 15 minutos de procura se passaram e nada. Já olhávamos os blocos de pedras ao nosso redor como possíveis abrigos, decidimos então voltar e descer pela própria CERJ, mas como poderíamos encontrá-la em meio à neblina que nos tirou quase todo nosso sentido de orientação?
Por sorte, nos poucos momentos que ficamos no cume fizemos um pequeno lanche, lá deixei cair um pedaço de biscoito no chão que foi milagrosamente encontrado, devido a este pedaço de biscoito, achamos novamente os grampos da via que se tornou a nossa única possibilidade de descida do cume.
Analisamos se era possível a descida de rapel pela mesma via e concluímos que sim, mas esta deveria ser uma descida de muita paciência para não dizer penitencia. Iniciamos então a descida por volta das 17h00min e logo percebemos que teríamos que ser precisos em nossas decisões devido a decida ter muitas diagonais e ser um E2. Os grampos estavam distantes uns dos outros e em breve a noite cairia de forma acelerada, descemos sem muitos problemas no inicio devido à claridade do dia.
Após passarmos uma artificial que esta na 7° parada, nossa situação ficou ainda pior, o vento batia cada vez mais forte e a chuva aumentara, sabíamos que a partir deste platô teríamos muitas diagonais na mesma proporção que aumentariam nosso tempo em cada rapel.
A noite caiu por completo, já não era mais possível ver onde a corda marcava sua metade e em cada rapel tínhamos que passar um pouco de magnésio na corda para possibilitar saber onde estava seu meio certo.
Num rápido momento onde o tempo abriu, vimos e ouvimos duas pessoas que estavam no meio do Vale dos Deuses, este perguntarem se estava tudo bem, respondemos que sim e ficamos de certa forma mais aliviados por saber que havia pessoas cientes de nossa existência na montanha.
No 6° platô onde é necessário fazer um grande diagonal para a esquerda, Bruno não conseguiu se firmar na rocha molhada e escorregou fazendo um grande pêndulo no qual acertara em cheio algumas bromélias que rolaram montanha a baixo fazendo um enorme barulho indicando assim que teríamos que ter mais prudência na descida.
Descíamos cada vez mais lentos, a chuva que não parava ficou ainda mais forte na parte final do rapel e a esta altura do campeonato, já havíamos perdido a conta da quantidade de rapeis que fizemos.
Com muita luta chegamos à base da via, mas ainda falava enfrentar uma canaleta de mato para enfim chegarmos à floresta que separa a montanha do Vale dos Deuses. Decidimos fazer um rapel para descer com mais segurança uma pequena chaminé que existe nesta canaleta, e por azar foi o único momento que a corda prendeu na rocha, tive de escalar a chaminé para tirar a corda entalada. Com o resgate da corda feito, chegamos à floresta.
No final de tudo, tinha plena consciência que havíamos vencido um grande desafio, não pelo grau de exigência da via, tampouco pelas adversidades do clima, mas sim pela tranqüilidade que tivemos tanto na subida quanto na descida da via.
Grande abraço!
Paz e bem, boas escaladas na rocha e na vida.
Marcio Araujo.




















